Colômbia troca café por banana

por admin_ideale

 

Juan Valdez, personagem símbolo do café premium colombiano, está dando literalmente com os burros n’água devido ao excesso de chuvas na lavoura, consequência do aquecimento global. A produção de café na Colômbia vem registrando forte queda nas últimas safras. A colheita, que rendeu 11,4 milhões de sacas em 2008, despencou para apenas 7,8 milhões de sacas em 2009, teve uma leve recuperação em 2010, mas em 2011 deve ficar ao redor de 8 milhões de sacas, segundo as projeções da Federação dos Cafeicultores da Colômbia, porque muitas árvores foram afetadas pelo fungo da ferrugem.


A variedade arábica do café da Colômbia é disputada pelas principais redes do mundo, como Starbucks e Green Mountain, e as plantações do país, concentradas nas regiões de Quindio, Vale del Cauca, Risaralda e Caldas, foram consideradas patrimônio da humanidade pela Unesco em junho deste ano. Mas todo esse sucesso internacional está sendo ameaçado pelo aumento da temperatura nas principais regiões produtoras do país. Cerca de 200 mil dos 513 mil produtores colombianos estão sendo afetados pelo excesso de chuvas no inverno, segundo a Federação Nacional dos Cafeteros. Isso atrapalha não só a agricultura, mas toda a infraestrutura, abrindo buracos em estradas e desabrigando pessoas inclusive em grandes cidades como Bogotá e Medellín.


De acordo com o Cenicafé (Centro Nacional de Investigaciones de Café, na sigla em espanhol), a temperatura média nas regiões produtoras colombianas aumentou pelo menos um grau em 30 anos. Já o volume de chuva esteve 25% superior nos últimos anos, o que prejudica significativamente o cultivo. “Um grau a mais pode fazer uma diferença absurda para o cultivo do café, que é adaptado para zonas muito específicas. Se a temperatura crescer só um pouquinho, as pragas e doenças podem explodir”, afirmou Nestor Riaño, climatologista do Cenicafé.


Entidades ambientalistas e cientistas têm apontado o aquecimento global como causa de uma futura escassez de café no mundo. “A produção global de café está sob ameaça do aquecimento global. As previsões para o arábica não são boas”, disse Peter Baker, do Cabi (organização de pesquisas climáticas do Reino Unido) ao jornal The New York Times. O tema é bastante complexo. “O El Niño e o La Niña mudaram os índices de precipitação, mas a Colômbia tem uma topografia muito particular e é muito difícil generalizar e citar somente uma mudança climática”, afirma Jacqueline Castaño, porta-voz da Federação Nacional dos Cafeteros, ressaltando que o norte e o leste do país foram as regiões mais afetadas. Em outros lugares do mundo, assim como no Brasil, a produção está aumentando (leia na pág. 50). Além disso, no caso colombiano, os cafeicultores enfrentam outras dificuldades, além das mudanças climáticas. A principal, em comparação ao Brasil, é que as propriedadades são pequenas, o que torna mais difícil agregar valor e combater as dificuldades. Segundo José Fabio Murillo, especialista da Federação Nacional de Cafeicultores, a volatilidade de preços do café faz com que os produtores colombianos desistam, pelo menos parcialmente, do cultivo. As despesas com defensivos agrícolas ficaram altas demais para os pequenos produtores.


Outro aspecto que desfavorece os cafeicultores, segundo Murillo, é que não existe a possibilidade de mecanização do plantio, da secagem e da colheita. Devido à qualidade exigida pelos importadores, todo o processo tem de ser manual. ”Também não podemos abrir mão dos empregos que a colheita e a secagem dos grãos geram. Exportamos a maior parte e precisamos garantir a qualidade no café”, afirma.


De acordo com o especialista, muitos produtores estão trocando o cultivo de café por abacate, banana, citros, cacau ou criação de gado. No caso de Jesus Orídeo Triana, administrador de 12 hectares no montanhoso município de Montenegro (a 1.292 metros acima do mar), no Departamento de Quindio, no centro do país, a opção foi trocar o café pela banana. O acesso à região por terra, desde Bogotá, é complicado por conta da geografia. São quase oito horas de viagem, apesar da qualidade satisfatória das estradas colombianas. O que prejudicou a produção de Orídeo foi um inseto chamado na região de broca (no Brasil, é conhecido por broca do café e pelo nome científico Hypothenumus hampei). A praga é nativa da África e a mais comum na Colômbia, geralmente atraída pelo excesso de chuvas. Consequentemente, a doença afetou praticamente todos os cafeicultores colombianos.


Com a broca o agricultor foi obrigado a se desfazer da maior parte do cultivo de café. O inseto geralmente destrói as sementes e, muitas vezes, as frutas. “Os insumos agrícolas são muito caros. Não era mais possível continuar só produzindo café”, revelou o produtor, que conta com apenas um ajudante na propriedade. Além da broca, o agricultor enfrenta a roya (ferrugem, ou Hemileia vastratix), que provoca o desfolhamento. Essa doença já provocou a perda de 23% da produção colombiana. O fungo, no entanto, ainda era controlado mais facilmente por Orídeo que a broca. O Cenicafé inclusive já desenvolveu uma muda resistente à ferrugem, em 2008, que é usada pelo cafeicultor. “Aqui o clima é perfeito. Mudou só um pouquinho, mas o calor também é importante. Só a chuva atrapalha”, conta Orideo. A roya era incomum no país em altitude superior a 1.700 metros, mas nos últimos anos o fungo também começou a atrapalhar os produtores dessas áreas.


A opção pela plantação de banana se deu pela simplicidade do cultivo e pelos custos baixos. “Não há muitos problemas com os bananais. A produção não é muito onerosa e dá pouco trabalho”, diz Orídeo. Atualmente, a pequena propriedade destina apenas três hectares ao café e quase nove à banana. A rentabilidade aumentou 80%. “Desse jeito, não tem como dar errado. A região aqui é perfeita para produzir café e bananas”, diz Orídeo.


Café brasileiro toma espaço do colombiano


Acostumados a beber o café suave produzido na Colômbia, de grão arábica, os consumidores americanos, europeus e asiáticos experimentaram outros tipos de cafés quando as safras colombianas começaram a minguar, em 2009. Sem o tradicional fornecedor, esses mercados não tiveram outra saída senão buscar os grãos no Brasil, o maior produtor mundial (a Colômbia é o segundo e o Vietnã o terceiro). Mas o que seria apenas uma medida emergencial, para suprir a demanda internacional enquanto a Colômbia se recuperasse, tornou-se uma tendência: os consumidores mais exigentes do mundo provaram e gostaram dos cafés brasileiros.


Em setembro, de acordo com o Cecafé, entidade que representa os exportadores, as vendas externas aumentaram 38,8% em relação ao mesmo período de 2010 e atingiram US$ 805 milhões. Eduardo Carvalhaes, do escritório Carvalhaes, de Santos (SP), acredita que esse cenário será duradouro. “Com dificuldade em encontrar cafés na Colômbia e América Central, os compradores vieram ao Brasil procurar café lavado e cereja descascado. Compraram por falta de opção, gostaram e voltaram a comprar.” Para ele, dificilmente o café brasileiro perderá espaço. “Esses mercados foram conquistados e vão crescer mais. Eles adoraram nosso café”, diz.


O crescimento do café brasileiro no mercado internacional despertou a atenção da rede americana Starbucks. Em outubro, Howard Schultz, presidente da companhia, declarou que tem US$ 2 bilhões em caixa para investir de maneira “agressiva e oportunista” no Brasil. “Toda essa situação ocorrida na Colômbia começou a desenhar um novo cenário no mercado de café. O Brasil soube tirar vantagem disso e está sendo muito positivo, muitos investimentos estão vindo”, afirma Carlos Brando, da P&A Marketing Internacional, de Mococa (SP). “A redução das safras colombianas abriu um espaço muito importante, que não vai recuar.”


 


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