ARTIGO – Política Econômica: Mudanças e Alertas

por admin_ideale

 

 


Miriam Leitão, em artigo inteligente e muito bem escrito no Jornal “O GLOBO” de 1/10/2011, mostra que a política econômica mudou: O Governo admite desde 2008/2009 um pouco mais de inflação em troca de algum crescimento adicional. Para ela, e para muitos outros economistas, inclusive para mim, que não sou economista, mas vivo exercitando meu mestrado em economia e desenvolvimento rural para proceder a uma releitura econômica sob a lógica do agronegócio. Quase um dever de ofício, um compromisso com meus colegas técnicos e com os agricultores, depois de 40 anos de profissão dedicados à economia rural capixaba.


 


Sobre a política econômica do Governo, suas vulnerabilidades e os reflexos da crise econômica mundial no agronegócio, já me expressei várias vezes. Mas a novidade, trazida pelo artigo citado está na leitura mais ampliada das variáveis econômico-fiscais que levaram a articulista a concluir pela mudança, rumo à velha política: “O sistema de metas de inflação foi flexibilizado para se aceitar um pouco mais de inflação; o regime fiscal só fecha na meta quando há receitas extraordinárias ou truques contábeis; o fechamento comercial está no discurso supostamente nacionalista e nas medidas que se apresentam como defesa do emprego”.


 


De fato, é a velha política que tanto dano trouxe no passado, e que volta aos poucos, em instrumentos antigos e discursos sabidos para justificar as intervenções que sancionaram a inflação, o excesso de protecionismo, a começar pelo setor que menos precisa, o automobilístico, exatamente no momento em que o câmbio dá mostras de reagir como sinal da própria debilidade da politica econômica do Governo e da crise internacional que se agrava. Somente em setembro o dólar subiu 18%, o que significa que não precisava de medidas de elevação de IPI para os automóveis importados. Não seria mais razoável reduzir a carga tributária interna dos automóveis para lhes assegurar competitividade? O consumidor e os produtores vão pagar internamente preço maior pelos veículos utilitários- mesmo não sendo importado- porque esta política protege a industrial local, agora com mais liberdade para exercer sua função oligopolista interna, alinhando preços.


 


O efeito câmbio, associado à crise, fez com que os preços em dólares das commodities caíssem, mas os produtos exportáveis, aí incluídos o café, a carne, as frutas, em média, melhorassem seus preços, em reais.


 


Verifica-se uma estranha decisão esta de conter exageradamente a elevação do dólar e manter as medidas protecionistas, depois de mais de cinco anos de grotesca defasagem cambial, sustentando por longo tempo um processo visível de desindustrialização, especialmente nos manufaturados e nos produtos agroindustriais.


 


Acho, contudo, que o Governo não terá fôlego para impedir certo grau de valorização do dólar, até mesmo porque sua opção de um pouco mais de inflação em troca de algo mais de crescimento, favorece essa valorização do dólar e, consequentemente, em algum grau, as exportações.


 


 Vale, contudo, destacar que o efeito preço internacional não está computado nesta primeira leitura dos dados da crise. Certamente, se os países da Europa e os Estados Unidos reduzirem muito seu nível de atividade, os preços agropecuários internacionais tenderão a cair proporcionalmente mais do que a elevação do dólar, em real. Assim, parece necessário esperar mais uns dois ou três meses para ver os rumos da crise e seus efeitos internacionais, e inferir sobre o comportamento futuro dos preços dos produtos agropecuários.


 


Assim, na transição de um fim de ano e início de outro é que teremos sinais mais claros da abrangência e profundidade da crise, o que significa dizer, somente no início de 2012. Mas isso não impede que o Governo continue apostando na velha política. Essa aposta no velho tem um preço que já conhecemos, e essa conta toda a sociedade corre o risco de pagar, mais cedo ou mais tarde.


 


 


 


Wolmar Loss


Engenheiro Agrônomo, Mestre em Economia Rural e Desenvolvimento Econômico. Secretário da SEEA


 


 


 


 


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