ARTIGO – A Dinâmica do PIB do Agonegócio desde o Plano Real

por admin_ideale

 


Nestes tempos de muito pouca análise documental e noticiosa, a publicação de dados consistentes, e em série temporal, como fez o CEPEA sobre o PIB do Agronegócio desde 1994, até 2010, nos deixa feliz porque podemos, pelo menos, ver para onde estamos caminhando.


 


Não poderia ser diferente: São Paulo, por suas instituições públicas ou organizações da sociedade privada, estão bem à frente no entendimento do verdadeiro papel do Estado e da iniciativa privada no processo de produção de ciência e de conhecimentos. Mais ainda, antes de esconder verdades, ou pior, escamoteá-las, expõem seus números e suas análises, valorizando críticas e análises adicionais que contribuam com o aperfeiçoamento do conhecimento.


 


Pois bem, os dados do CEPEA nos mostram que, em termos de participação do Agronegócio no PIB total, estamos mais ou menos estacionados, flutuando entre 23,50 e 25%. O que isto significa, em síntese, é que a dinâmica do agronegócio comportou-se muito próxima do resto da economia brasileira, crescendo mais em uns anos e menos em outros.


 


Segmentados por setores do agronegócio, considerados: a) os insumos e serviços produtivos; b) a produção agropecuária; c) a indústria; d) a logística e a distribuição dos alimentos, verifica-se um quadro desafiador para o estabelecimento de políticas públicas para o setor e um chamamento aos produtores, para avançar na industrialização e na comercialização de seus produtos.


 


Analisemos os dados, primeiramente, em sua forma agregada, ou seja, considerando todo o PIB do agronegócio, para depois destrinchá-los em subsetores da Agricultura e da Pecuária. No agregado do agronegócio, e considerando os insumos, enquanto crescemos 30% em peso desses itens na composição do PIB, as atividades dos produtores cresceram apenas 11%, o que significa que, na média, os produtores perderam participação relativa na composição do PIB agronegócio.


 


No conjunto o agronegócio decresceu 5,30% em participação total no PIB, entre 1994 e 2010. Isto foi compensado pelo declínio proporcionalmente maior da participação da indústria e do segmento de distribuição. Em síntese, enquanto os insumos penalizaram os produtores, os segmentos da indústria e da distribuição, porque tinham gordura para queimar, foram mais eficientes. Na média dos três anos iniciais, de 1994/1996, a indústria e os serviços de distribuição representavam 67,50% do PIB do agronegócio e no triênio 2008/2010, 62,23%.


 


Analisando os dados específicos da produção das culturas agrícolas, na mesma ótica do agronegócio, verifica-se que os insumos tiveram crescimento de 28% na participação no PIB, as atividades agrícolas propriamente ditas cresceram 10,80% e o setores da indústria e da distribuição apresentaram declínio de 4,38%, passando de 73,15% para 68,77%. Na verdade, pressionados pela competição na ponta do varejo, esses últimos segmentos foram compelidos a reduzir seu Mark-up.


 


Na pecuária, os insumos apresentaram crescimento de participação no PIB de 32%, os maiores índices verificados tanto no agregado como por subsetor. Medicamentos e concentrados minerais certamente puxaram os pesos relativos para cima, neste caso. No total, o peso da pecuária no agronegócio permaneceu o mesmo ao longo dos 17 anos, mesmo com o crescimento dos preços da carne bovina, sendo segurados, presumivelmente, pelos cortes de suínos e frango. O leite e derivados viveu oscilações no período, sendo indefinida sua contribuição relativa na tendência de comportamento do PIB da pecuária como um todo.


 


Cresceu a participação relativa dos produtores, de 2,48% para 2,71%, um incremento médio de 9%, reduzindo-se a participação da indústria e da distribuição em 3,40%, considerando-se um ajuste importante já que as margens da indústria e da distribuição são historicamente menores no segmento de carnes e laticínios, comparativamente à agroindústria de grãos (cerca de53%).


 


No conjunto, parece razoável admitir que o crescimento da produtividade na agropecuária, reconhecidamente um feito decantado em prosa e verso, não correspondeu a maior ganho relativo dos produtores na participação no PIB. O princípio de que os ganhos de produtividade não ficam com os produtores parece se confirmar, especialmente quando os preços são comprimidos pela sobrevalorização cambial, nos caso dos exportáveis. Internamente, pelo crescimento da demanda de seus produtos foi às compras e pagaram um pouco melhor para os produtores, mas suas rendas, além de desproporcionais aos ganhos de produtividade, foram influenciadas negativamente pelo crescimento dos insumos em sua participação no PIB do agronegócio.


 


Reafirmam-se, aqui, duas constatações teoricamente conhecidas: primeiro, a de que o peso da indústria e da distribuição dos alimentos absorvem  muito da renda do agronegócio (Agricultura 68.77% e a pecuária 53%). Aqui, vale a recomendação de que os produtores e suas organizações de todos os tamanhos, busquem nichos específicos segundo a diferenciação de seus produtos, e  avancem na agroindustrialização e na agregação de valor.


 


Segundo, não há porque desconsiderar, em âmbito das políticas públicas, o peso cada vez maior dos insumos e serviços na produção agropecuária. Desonerar, incentivar a produção interna de fertilizantes, avançar em tecnologias que melhore a resistência das plantas às pragas e doenças, à escassez de água e a eficiência das plantas na extração de alimentos do solo, são indicativos programáticos indispensáveis para corrigir desequilíbrios de preços relativos e para continuar avançando no desenvolvimento da agricultura brasileira e capixaba.


 


 


 


Wolmar Loss


                 Engenheiro Agrônomo e Mestre em Economia Rural e Desenvolvimento Econômico


 


 


 


 


 


 


 


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