A escalada atual dos preços dos alimentos não pode ser atribuída, tão somente, a uma quebra mundial de safra. Melhor será associar três fatores: i) As anormalidades climáticas que afetaram em algumas regiões a produção agropecuária; ii) O aumento de consumo de alimentos nos países emergentes, especialmente China e Índia; iii) Os baixos estoques de alimentos, na maioria dos países ricos ou pobres.
Estudo da EMBRAPA tem mostrado que o Governo Federal tem alterados os mecanismos de sustentação de preços aos produtores, renunciando às ações de AGF’s e EGF’s, que tratam de financiamento e aquisições oficiais de produtos, diretamente de produtores ou suas cooperativas.
A preferência tem recaído sobre contratos de opção de venda, que financiam a retenção do produto para entrega facultativa futura, e leilões de VEP E PEP que promovem o escoamento com subvenção estatal de frete de produtos agropecuários das regiões produtoras para as de maior consumo, o que pode levar a graves riscos numa eventual quebra de safra.
Agora, o governo brasileiro busca construir um consenso no bloco dos países que integram o Mercosul para rechaçar o controle sobre os preços dos alimentos defendido por Sarkozy, em vista do aumento desproporcional de preços em todo o mundo.
Esta tese do Presidente Francês é, no mínimo, contraditória. Os países desenvolvidos praticam o protecinismo a duas mãos: subsidiando a produção local e impondo fortes tarifas de importação, inibindo as oportunidades de preços justos para os países exportadores de alimentos, como o Brasil. Mesmo assim, a duras penas, com juros internos elevados e graves problemas tributários e de infraestrutura, estamos competindo e avançando na produção agropecuária.
Agora, com preços elevados e riscos de desabastecimento mundial, querem controlar preços, punindo os países que ganharam competitividade, mesmo na crise de preços baixos, decorrência das medidas protecionistas que historicamente impuseram às nossas exportações.
A responsabilidade de formação de estoques reguladores e estratégicos no Brasil não se relaciona à crise atual de alimentos, de âmbito global, mas à necessidade de uma política pública interna de sustentação de preços e segurança alimentar para os brasileiros.
Com efeito, o agravamento das anomalias atmosféricas, decorrência de eventos climáticos globais, com graves secas em determinadas regiões e ocorrências catastróficas de furacões, terremotos, tsunamis, ciclones e de intensas chuvas em outras, recomendam uma urgente revisão nas políticas públicas brasileiras de incentivo à produção, seguro rural e estocagem de produtos agropecuários.
Se os estoques reguladores e estratégicos brasileiros ajudarem a alimentar o mundo, então estamos cumprindo duplamente nossa função: alimentando os brasileiros e ajudando a alimentar o mundo. Se houver controles de preços em nível global como quer Sarkozy, temo que não haja alimentos para os brasileiros, tampouco para o mundo. O controle de preços levará à inibição da produção em todos os países.
Wolmar R. Loss
Engenheiro Agrônomo, Mestre em Economia Rural

