A enquete sobre a expansão do feijão

por admin_ideale

 


O Portal Campo Vivo acaba de publicar o resultado de uma enquete cujo objetivo, em pergunta simples e direta, foi verificar se o seu público leitor acreditava na expansão da cultura do feijão no Espírito Santo, para os próximos anos. A enquete teve com base o argumento de que a produção capixaba é de apenas 19 mil toneladas de feijão por ano e a demanda é de 57 mil toneladas, apresentando um déficit de 38 mil toneladas anuais. Em vistas destes números o INCAPER decidiu por alocar pesquisadores e esforço técnico específico para melhorar o desempenho da cultura em terras capixabas.


 


A resposta dos leitores foi retumbante: 84 % não acreditam na expansão da cultura do feijão e, apenas, 16% acreditam. A meu ver, é preciso entender o que está por trás dessa resposta, para não desencorajar os pesquisadores do Incaper no desafio de gerar tecnologias para a cultura do feijão em terras capixabas.


 


Em primeiro lugar, não podemos entender eventuais déficits de produção, no balanço oferta x demanda de alimentos locais, como uma deficiência dos técnicos e dos produtores capixabas. Nem temos a obrigação de programar nossas ações e incentivos aos produtores para buscar o equilíbrio nesse balanço. A questão aqui é entender a resposta dos 84% como racional, sinalizando que na lógica da competitividade de mercado temos outras opções de culturas e criações, cujo retorno econômico é mais atraente. Sob esta perspectiva, vitória dos 84% e ponto para o mercado.


 


Em segundo lugar, na perspectiva da produção de subsistência, que privilegia a rotação de cultura e reduz custos da alimentação da agricultura familiar, com melhor aproveitamento da terra e da mão de obra da família, ponto para os 16%, porque entenderam a lógica competitiva da agricultura familiar. Na pluriatividade desses agricultores, aproveitar a terra, produzindo seus alimentos, sem precisar comprá-los na “venda” ou no supermercado, é um diferencial importante para reduzir os custos de produção da atividade familiar. Assim, eles produzem café, leite, frutas, olerícolas, voltadas para o mercado, com custos de produção muito inferiores, se comparado às compras de alimentos no comércio varejista. Estamos falando, portanto, de competitividade de custos, não de competitividade de mercado e disto os agricultores familiares entendem: fazem sua horta, produzem galinhas caipiras, porcos, feijão, farinha de mandioca etc, tudo que podem e de que precisam para se alimentar bem, a custo baixo. De quebra, ainda podem vender para o PAA, ou para a merenda escolar, os excedentes da produção de alimentos. Assim, fazem da produção de alimentos sua “renda permanente” e da produção de mercado, com o café e as frutas, por exemplo, sua “renda transitória”, que se transforma em renda monetária para melhorar sua qualidade de vida, com baixo custo de produção.


 


Nesta visão mais ampliada, podemos dizer que todos estão certos: Os que não acreditam na expansão da cultura do feijão, como oportunidade de mercado. Aqueles que acreditam como oportunidade de produzir seus alimentos para reduzir custos de produção e, por fim, o Incaper e seus pesquisadores, que orientam seus projetos e atividades, entendendo que a agricultura familiar tem uma lógica de produção diferenciada, com pluriatividade e estratégias de sobrevivência que muitas vezes não são compreendidas pelo mercado. Mas sobrevivem, desde sempre, em terras capixabas.    


 


 


Wolmar Roque Loss


 


                                        Engenheiro Agrônomo – Mestre em Desenvolvimento Econômico

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