A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) alertou que o mundo terá de conviver com uma nova realidade daqui para frente, o que aumentará o sofrimento de milhões de pessoas. Estudo divulgado ontem indica que a comida está cara e vai continuar assim apesar das previsões de safra recorde nos principais celeiros globais, entre eles o Brasil e os Estados Unidos. Os especialistas responsáveis pelo levantamento advertem também que os preços dos alimentos não deverão retornar aos níveis encontrados antes da atual crise entre oferta e demanda.
O relatório, que está disponível na página da entidade na internet, mostra que a valorização da maioria dos itens agrícolas básicos começa a ceder, mas de forma tímida. Comparada aos primeiros quatro meses do ano passado, a valorização em 2008 está, ao menos, 50% maior. “Comida não é mais um produto barato como no passado. O aumento no preço dos alimentos deve fazer com que os níveis inaceitáveis de privações sofridos por 854 milhões de pessoas piorem ainda mais”, disse o diretor-geral assistente da FAO, Hafez Ghanem. A organização classifica o cenário como “preocupante”.
A estimativa é que o aquecimento do mercado externo obrigue os países a importar US$ 1 trilhão em alimentos em 2008 pela primeira vez na história. Os países pobres ou com problemas de segurança alimentar deverão amargar os piores efeitos. De acordo com a FAO, as nações que vivem à margem da globalização vão gastar nada menos do que US$ 169 bilhões neste ano para garantir que a comida chegue à mesa de todos, volume 40% superior ao desembolsado no ano passado e quatro vezes além do que foi a importação em 2000.
No Egito, como em tantas outras regiões do mundo, os reflexos da escalada dos preços dos alimentos causam instabilidade social e pânico. O pão, produto essencial na dieta da população daquele país, subiu quase 50%. O fenômeno vem sendo chamado de “crise do pão”. Para conseguir levar uma ou duas unidades para casa, os egípcios precisam enfrentar filas gigantescas e se inscrever em programas oficiais para ter direito a algum tipo de subsídio do governo. A situação é tão grave que até as Forças Armadas foram requisitadas para fiscalizar as padarias como forma de impedir a venda de farinha de trigo no mercado paralelo.
A especulação é algo que preocupa a comunidade internacional. Com o superaquecimento da demanda, os impactos da agroinflação sobre o poder de compra das pessoas são devastadores, podem arrasar populações mais necessitadas e se estender por até 10 anos. A saída, de acordo com a FAO, é convencer os países desenvolvidos a apoiar as economias jovens porque, mesmo sem fôlego para tanto, todas nações vão continuar importando comida, embora em quantidades menores.
Ponta do lápis
Nas contas da FAO, o planeta gastará US$ 215 bilhões além do que desembolsou com alimentos em 2007. Arroz, trigo e óleos vegetais serão os principais vilões do ano porque nunca estiveram tão valorizados. A estimativa da entidade é que a produção mundial de cereais em 2008 alcance 2,1 bilhões de toneladas – 3,8% acima do registrado em 2007. A safra recorde, porém, não será o bastante para equilibrar os preços e reduzir a pressão de emergentes como China e Índia por itens agrícolas.
As expectativas em relação ao Brasil são boas. Conforme a FAO, o país tem grandes chances de ampliar ou consolidar mercados, aproveitando-se do momento para vender mais sem abandonar o mercado interno. Entre os produtos mais cobiçados, além dos cereais, estão a carne e os pescados. No caso do açúcar e dos lácteos haverá ganhos de produção, informou a organização, mas o comportamento dos preços desses produtos ainda é visto como uma incógnita.
Memória
Conflitos no mundo
Ao longo dos últimos dois anos a comida foi motivo de conflito em várias partes do mundo. No México, em 2007, o encarecimento do preço do milho levou a população às ruas e o governo teve de intervir para segurar a alta da tortilha. O Haiti viveu recentemente a crise do arroz, que derrubou o primeiro-ministro Jacques Edouard Alexis. Na África e na Ásia, pessoas pressionam por soluções.
Com o aumento da renda nos países emergentes, a população global nunca demandou tantos produtos agrícolas. Na história não há registros de uma época em que tantas nações saíram às compras ao mesmo tempo. O resultado é um choque de oferta similar ao que as guerras mundiais produziram, sobretudo nas economias dos países que se enfrentaram nos campos de batalha.
Em meio a riscos de desabastecimento, organismos internacionais, bancos e governos tentaram de tudo ano passado. A Europa reforçou suas políticas de subsídio para produtos fundamentais, alinhou projetos de biocombustíveis e passou a selecionar parceiros comerciais. Os Estados Unidos também ampliaram subsídios, fazendo explodir a produção doméstica. Já os países emergentes embarcaram na onda dos biocombustíveis sem saber ao certo se isso agravará ou não a crise de alimentos. (LP)
Ricos pretendem estocar
Diante da ameaça de desabastecimento, os países ricos já elaboram políticas para defender o consumo de seus cidadãos. Ontem o Parlamento Europeu fez um apelo à União Européia (UE) para que organize estoques de alimentos para evitar uma futura crise alimentícia na Europa. Em uma resolução, os deputados europeus destacaram que as atuais reservas de cereais durariam apenas 30 dias e se perguntaram se os estoques continentais de alimentos “estão atualmente em um nível correto, principalmente à luz de uma possível crise”.
Por esse motivo, os parlamentares pediram à Comissão Européia – braço executivo da UE – que “desenvolva estratégias para implementar inventários de alimentos a fim de impedir futuras crises”. O Parlamento Europeu também pediu “uma avaliação sobre o papel dos varejistas na cadeia alimentar, já que os preços dos alimentos subiram de maneira desproporcional em relação ao custo de vida”.
A resolução também destacou que se deve dar prioridade à produção de alimentos sobre a de biocombustíveis. Até 2020 os países se comprometeram em elevar para 10% a participação dos biocombustíveis no total de combustíveis consumidos no transporte. “A produção de biocombustíveis deve estar ligada a um forte critério de sustentabilidade”, afirmaram os deputados europeus.
Correio Braziliense

