A retomada das ações do governo, na semana passada, para a desocupação da terra indígena Raposa Serra do Sol, no estado de Roraima, voltou a acender entre grupos militares da reserva e entidades de proprietários rurais o debate sobre questões geopolíticas e a soberania da Amazônia. Afirma-se que a retirada dos não-índios da Raposa – cuja área de 1,7 milhão de hectares foi reconhecida no governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1998, e homologada por Luiz Inácio Lula da Silva, em 2005 – faria parte de um plano maior: a criação de uma grande nação indígena no extremo norte do país. Ela atravessaria os Estados do Amazonas e Roraima, na fronteira com Colômbia, Venezuela e Guiana.
Em Boa Vista, o porta-voz dos grandes produtores de arroz ameaçados de expulsão da Raposa, João Paulo Quartiero, é o principal divulgador dessa tese – sempre acompanhando suas explicações com a informação de que os militares pensam da mesma maneira. Para mostrar o que seria essa futura nação indígena, ele abre o mapa da região e mostra: as demarcações de terras indígenas vêm criando uma longa e contínua faixa de terras que inicia na chamada Cabeça de Cachorro, no Amazonas, fronteira com a Colômbia, e segue até Roraima, na linha divisória com a Guiana.
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Ação – Polícia Federal vai retirar arrozeiros
A Polícia Federal ainda não tem um prazo definido para a retirada dos produtores de arroz da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Agentes policiais recrutados em vários estados da Amazônia continuam desembarcando na capital e se deslocando para o interior da reserva, na fronteira com a Guiana e a Venezuela.
De acordo com informações não oficiais, por enquanto eles fazem treinamento e estudam a área. Numa segunda etapa vão retirar pequenos produtores rurais que ainda estão na reserva e, finalmente, os arrozeiros.
“São oito grandes proprietários que se recusam a negociar, não aceitando terras em outras regiões para a produção de arroz, nem o valor das indenizações propostas, que já estão sendo depositadas na Justiça”, observa o chefe do escritório da Funai no Estado, Gonçalo dos Santos. “A quase totalidade dos não-índigenas já saiu”, diz.
A operação de retirada dos produtores rurais é comandada pelo coordenador-geral de Defesa Institucional da PF, delegado Fernando Segóvia. Por meio da assessoria de imprensa, ele informou que sua principal preocupação nos próximos dias será o recrutamento e o transporte dos policiais para a região. Não está descartada a criação de barreiras para controle de entrada e saída de pessoas e de mercadorias da reserva.
Rumos da floresta
Donos de terra e militares acreditam que o rumo dos fatos ocorridos na Amazônia apontam para um desembramento do Brasil.
Entenda:
1 Reservas – O Brasil tem hoje 109 milhões de hectares de áreas indígenas. Quase tudo, 108 milhões, fica na Amazônia legal.
2 Área contínua – Fazendeiros afirmam que a demarcação das terras está formando uma imensa área contínua no Norte da federação. Eles dizem temer que essa área, futuramente, venha a se separar do país para formar uma nova nação.
3 Ligação – A homologação da reserva indígena Raposa Serra do Sol levantou as discussões novamente. A área tem 1,7 milhão de hectares em Roraima e aumenta a ligação entre as demais reservas.
4 Pressão – O Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos, entidade ligada às Forças Armadas, afirma que “inúmeras ONGs internacionais vêm aumentando a pressão” para declarar a Amazônia como patrimônio da humanidade. Segundo essa tese, a região deverá ser administrada por uma autoridade internacional”.
Gazeta do Povo – PR

