Dois dias após invadir uma carvoaria da Vale do Rio Doce no Maranhão, sem-terra ligados à Via Campesina e ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra invadiram e bloquearam ontem uma ferrovia da mineradora, em Resplendor (465 km de Belo Horizonte).
Cerca de 800 manifestantes, a maioria mulheres, segundo a Polícia Militar, fecharam a Estrada de Ferro Vitória a Minas. Mil pessoas, segundo os movimentos, estavam na manifestação. Integrantes do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) também protestaram.
O protesto faz parte da série de manifestações em razão do Dia Internacional da Mulher (8 de março). Desde terça ocorreram atos em ao menos 15 Estados e no Distrito Federal.
Com a paralisação da ferrovia, cerca de 300 mil toneladas de minério de ferro deixaram de ser transportadas para o porto de Tubarão, no Espírito Santo. O embarque de passageiros, cerca de 2.500 por dia, também foi suspenso. A Vale chamou o protesto de mais uma “ação criminosa do MST”.
Nos trilhos
Por volta das 4h, 25 ônibus levando os invasores chegaram à ferrovia, em Resplendor. Segundo a PM, uma composição estava parada no local, por causa da troca de turno dos maquinistas. Os manifestantes, então, invadiram os trilhos e interromperam o tráfego com pneus. Também cercaram os trilhos com arame farpado e montaram barracas no local.
Durante o ato, dezenas de sem-terra subiram no teto do trem. Com bandeiras dos grupos, cantaram hinos dos movimentos, gritaram palavras de ordem e pediram o fim do agronegócio e a reestatização da Vale. A Vale informou que o maquinista Pedro Simões, 63, foi mantido refém na locomotiva, onde ficou sem comer e beber por horas. Os invasores negam.
Em entrevista por telefone, o maquinista disse que os manifestantes impediram que ele saísse da locomotiva por 12 horas e não permitiram que outro maquinista assumisse: “Eles falavam que eu não podia descer. Por volta das 12h, a Vale tentou negociar. A empresa levou um maquinista até lá, mas eles não aceitaram a troca”. Segundo Simões, ao dizer que estava com fome, os sem-terra levaram uma “marmita fria e azeda”.
Sobre as ações judiciais que a Vale promete mover contra os líderes, a coordenação da Via Campesina disse que “a empresa está fugindo do debate”.
Os invasores reivindicaram também indenização e moradia para cerca de 2.000 famílias desalojadas em 2005 devido a construção da barragem de Aimorés, de cerca de 2.000 hectares resultado de um consórcio entre a Vale e a Cemig. Segundo a Via Campesina, só 40 famílias foram assentadas.
A Justiça de Resplendor concedeu liminar de reintegração de posse à Vale. Os sem-terra desocuparam os trilhos por volta das 16h30. Os manifestantes terminaram o ato com uma passeata pela cidade.
A ferrovia tem 905 km e transporta 37% da produção nacional da empresa.
Folha de São Paulo

