´Cristo só é grande e misericordioso em função de sua face rural´

por admin_ideale


 


 


Natal. Nascimento de Jesus. Para os seguidores de Cristo, Natal é muito mais do que memória e comemoração do nascimento do Senhor. Essa data, comemorada em quase todo o mundo, é tempo de agradecer e celebrar. Atualmente, o espírito natalino está se perdendo um pouco no meio do consumismo. E é na zona rural que ainda encontramos mais preservado esse sentimento de natal. Talvez, seja pela ligação entre o nascimento de Cristo e o campo.


Nesta entrevista, o historiador Antonio Bezerra Neto fala sobre a ligação entre o Natal e a zona rural, sobre a imagem do presépio e a preocupação com a superficialidade do espírito natalino.


 


 


Campo Vivo: Professor, qual a relação que o Natal, data que celebramos o nascimento de Cristo, tem com a zona rural, com o campo?


Antonio Bezerra Neto: Eu diria que o Cristo só é grande e misericordioso em função de sua face rural. É do mundo rural que vem efetivamente a salvação. A manjedoura é o anúncio que o Filho de Deus prima pelas coisas simples da terra, isto é, num ponto de vista histórico, um Cristo histórico, uma manjedoura histórica, sem entrar no aspecto teológico. Cristo poderia ter nascido em Belém, que era uma cidade, mas nasce nos arredores. Portanto, criando uma analogia dialética, pensando a história, o Cristo seria um homem do campo, não no sentido político.


CV: A imagem do presépio mostra bem isso…


Bezerra: Sem dúvidas. Evidentemente que a Palestina era uma região tomada por pastores, mas o império romano estava lá. Não tinha cidades grandes, mas Belém possivelmente tinha seus 7, 8 ou 10 mil habitantes, o que era uma coisa muito representativa para a época. E de repente o Cristo nasce na manjedoura, como a tradição reza, ao lado de vacas, burrinhos, ovelhas. Então, esse grande vínculo do Cristo com o mundo rural.


CV: E nessa imagem do presépio também podemos observar a presença dos três Reis Magos que na época, como diz a tradição, trouxeram presentes para o menino Jesus. E hoje a questão dos presentes é muito forte, principalmente, na cidade. Qual o comparativo que você faz entre o espírito natalino da cidade e o da zona rural?


Bezerra: É bom a gente pontuar alguns aspectos de muita responsabilidade histórica. A zona rural se aproxima de forma muito intensa do mundo urbano. Está muito difícil separar o que é rural e o que é urbano, de tal maneira que me preocupa muito toda essa questão de presentes. Essa “falsidade” natalina, que se resume a comprar presentes, tende a chegar ao campo porque o campo está se industrializando. O presente é natural, a grande preocupação é o excesso de presentes, é a não reflexão sobre o nascimento de Cristo.


CV: Eu andei pelo interior do município de Linhares para verificar como que é esse aspecto natalino no campo, se ainda existe esse espírito por lá. E eu estive conversando com alguns meninos, de 8 a 10 anos, e eles querem ganhar presente, mas também guardam com muito carinho a figura do presépio que eles aprenderam a fazer na escola. Você teme que essa nova geração da zona rural possa perder definitivamente esse espírito, tendo em vista esses personagens criados em relação ao consumismo, como por exemplo, o Papai Noel?


Bezerra: Evidentemente que já chegou ao campo isso, mas não literalmente. Eu diria que o homem precisa das tradições. Por que você tem um sobrenome? É a sua marca, sua tradição. Então, as festas só têm sentido quando há por trás um horizonte de tradições. E as tradições fazem bem ao homem porque elas permitem identidade e a preservação da memória. Então, esse atal consubstanciado na superficialidade é muito perigoso. Eu estive recentemente em uma festividade na propriedade do senhor Jacinto Soprani, no Córrego farias, município de Linhares, e senti o néctar do natal. Isso é perfeitamente possível. Mas eu aposto que, de uma maneira ou de outra, a tendência da população é manter suas tradições porque se romper com as tradições rompe também com o seu processo histórico, com sua vida, e tudo pode desabar em função disso. Se o homem jogar no chão suas tradições, ele perece com elas.


CV: Nesse contexto, professor, qual o presente que o senhor pediria nesse Natal?


Bezerra: Eu pediria um presente especial. O sentimento de tolerância. Por que a cristandade é a tolerância e ela tem que existir no mundo urbano e no mundo rural. Eu pediria que a tolerância fosse pelo menos uma regra e não fosse uma exceção. E o presépio é isso, é a tolerância, é o menino Jesus diante da vida, diante do mundo, com uma mensagem, com um caminhar.


 


 


(entrevista publicada no Portal Campo Vivo no dia 25-12-2007)


 

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