O piloto de drone agrícola: mais do que um operador, um gestor

*Edney Leandro da Vitoria

por Portal Campo Vivo
Foto: Edney Leandro da Vitoria

A ascensão dos drones no agronegócio promete uma revolução na forma como as lavouras são tratadas, e isso é uma realidade ou como costuma-se a dizer no dia a dia, ´”um caminho sem volta”. No entanto, por trás da aparente simplicidade de um voo automatizado, esconde-se uma complexidade que exige muito mais do que uma noção básica de pilotagem. A segurança alimentar, a eficácia no combate a pragas e a sustentabilidade ambiental dependem de um novo perfil profissional: o gestor de pilotagem de drone agrícola.

É comum encontrarmos em diversas redes sociais, reportagens em sites especializados na Internet e propagandas de revendas de drones, uma  imagens icônicas de drones sobrevoando diferentes tipos de lavouras e de vasta extensão, aplicando defensivos e fertilizantes agrícolas com precisão, tornou-se um símbolo da agricultura 4.0. A tecnologia, que já é uma realidade em muitos países, oferece vantagens inegáveis: redução no uso de agrotóxicos, menor compactação do solo e a capacidade de tratar áreas de difícil acesso. Contudo, a crescente adoção dessa ferramenta tem exposto uma lacuna crítica, pouco comentadas e até mesmo negligenciada: a falta de qualificação profissional específica para a atividade.

Estudos recentes e análises de marcos regulatórios em todo o mundo são unânimes em apontar que uma licença genérica de piloto de drone, como a popular certificação Parte 107 da FAA nos Estados Unidos, é apenas o primeiro passo de uma longa jornada. Operar um drone para fins recreativos ou para filmagens é uma coisa; operar uma aeronave que aplica produtos químicos sobre uma cultura que alimentará milhares de pessoas é outra completamente diferente.

O problema central é que o treinamento genérico não aborda as variáveis críticas da aplicação agrícola ou apenas certifica a operação, sem uma abordagem técnica. Fatores como regulagem, calibração e configuração da aeronave (taxa de aplicação, tamanho de gota, velocidade de operação, faixa de aplicação), mapeamento, a compreensão mínima dos efeitos aerodinâmica e fluidodinâmicos sobre a penetração das gotas no dossel das plantas, e o conhecimento sobre o momento certo de aplicar um produto, considerando o estágio de desenvolvimento da cultura e as condições meteorológicas, não fazem parte do “currículo padrão” de um piloto de drone.

Reconhecendo esses riscos, as principais agências reguladoras do mundo já se movimentam para profissionalizar o setor. Nos Estados Unidos, a FAA exige que, além da licença de piloto, o operador obtenha uma certificação específica para aeronaves agrícolas, a Parte 137. Na prática, isso significa que o operador de drone é visto pela lei da mesma forma que um piloto de avião agrícola, com responsabilidades equivalentes. Mesmo assim, a fiscalização ainda é um desafio, e muitos operadores atuam em uma zona cinzenta, sem a qualificação completa.

Na União Europeia, a abordagem é ainda mais rigorosa. O novo marco regulatório, centralizado pela EASA, estabelece a obrigatoriedade de treinamentos específicos, exames e certificados de competência que devem ser renovados periodicamente. A regulamentação europeia é baseada em risco e leva em conta não apenas a segurança do voo, mas também as especificidades da operação, como o tipo de produto aplicado e as condições ambientais, exigindo um nível de conhecimento que só um treinamento especializado pode oferecer.

A falta de profissionais qualificados não é apenas um risco, mas também uma das maiores barreiras para a adoção mais ampla da tecnologia. Agricultores e grandes empresas devem avaliar a contratação de serviços de pulverização com drones sem a garantia de que o piloto e sua equipe saibam o que estão fazendo. Um erro na aplicação pode significar a perda de parte da colheita, a contaminação de áreas vizinhas ou, em casos extremos, a presença de resíduos de agrotóxicos acima do permitido no produto final.

Por isso, a qualificação profissional funciona como um selo de qualidade e confiança. Um operador certificado demonstra ter domínio sobre um conjunto de competências que vão muito além da pilotagem. Ele precisa entender de regulamentação, saber calibrar seus equipamentos, ter noções de agronomia e fitossanidade, e ser capaz de gerenciar os riscos inerentes à operação, desde a análise do clima até o manuseio seguro dos produtos químicos.

Em resumo, o futuro da pulverização com drones não está apenas na evolução das aeronaves, mas na capacitação das pessoas que as operam. O agronegócio precisa de profissionais que combinem a destreza de um piloto com o conhecimento de um técnico agrícola. Somente com operadores qualificados será possível garantir que essa tecnologia cumpra sua promessa de uma agricultura mais eficiente, segura e sustentável para todos.


Edney Leandro da Vitoria
Doutor em Engenharia Agrícola e Professor da Ufes, Campus São Mateus-ES. Especialista em tecnologia de aplicação de defensivos agrícolas por meio de drones.


A Campo Vivo não se responsabiliza por conceitos emitidos nos artigos

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