ARTIGO – Avanços e desafios da pecuária leiteira capixaba

por admin_ideale

 


A pecuária leiteira capixaba vem aos poucos se transformando, a julgar pelos ganhos substantivos em produtividade e quantidade produzida, seja por vaca em lactação, seja por área de pastagem, embora se revelem desigualmente distribuídos para as diferentes regiões do Estado.


 


Estas sinalizações de avanços, com ganhos qualificados em genética, alimentação e manejo, é um fato auspicioso, considerando que a pecuária leiteira ficou estagnada por mais de duas décadas.


 


 E essa transformação vem se dando pelo esforço articulado das lideranças dos produtores, pelo maior dinamismo das cooperativas do setor, pelo envolvimento direto das associações de criadores e pelos avanços na organização comunitária dos produtores, apesar das vicissitudes dos mercados, de âmbito interno e externo, e das condições agroclimáticas muitas vezes desfavoráveis.


 


Essas sinalizações, ao mesmo tempo em que muito positivas, nos estimulam a refletir sobre as fragilidades que ainda persistem em termos organizacionais, sejam no âmbito público, seja no segmento privado, em vista dos desafios que temos pela frente.


 


No âmbito da Assistência Técnica Estadual, o fortalecimento do Incaper e a atuação conjunta com os técnicos municipais, das Prefeituras, das Cooperativas, dos Sindicatos, das Organizações para-estatais, como o Senar e o Sebrae, e das Associações de Produtores seguramente poderiam ampliar o alcance, a abrangência e os resultados das transformações já identificadas.


 


Nesta linha, a atuação na base comunitária deveria ser o lócus das intervenções, dadas as especificidades e particularidades que envolvem a pecuária leiteira. Assim, não basta ter técnicos; é preciso ter projetos e atuação articulada, construídas junto com as comunidades, com a participação de todas as instituições e agentes locais do setor. O caminho, portanto, será adensar e qualificar o processo produtivo, a partir do que já vem sendo feito em várias frentes: tanques de resfriamento, inseminação, controle de brucelose, controle da qualidade do leite etc.


 


No âmbito das Cooperativas é necessário estar atento às transformações do setor de lácteos, especialmente a tendência de fusão entre as centrais leiteiras cujas possibilidades se aventaram no final do ano passado: Minas leite, Cemil, Centroleite, Itambé e Confepar. Essa mega corporação, levada à frente pela fusão pretendida, resultaria na maior captadora e distribuidora de produtos lácteos da América Latina, com faturamento estimado de R$ 4 bilhões/ano. A escala certamente pressionaria a competitividade do setor, restringindo as oportunidades das cooperativas regionais. As cooperativas capixabas deveriam acelerar os entendimentos para uma atuação integrada no setor, decidindo-se por uma atuação mais ampla, com produtos diferenciados pela qualidade, porquanto a concorrência, nos mercados interno e externo, ficará cada vez mais complexa e desigual.


 


O setor avança e se adensa, no mercado capixaba, com a inauguração da Fábrica de Leite em pó da Cooperativa Selita, de Cachoeiro de Itapemirim, e a instalação de uma torre de secagem em Mucurici, esta pela Empresa do Grupo Damare, destinada, preliminarmente, para o processamento do soro do leite das indústrias do próprio grupo empresarial. Estes investimentos ampliam as oportunidades de negócios para o setor, mas ao mesmo tempo coloca-o sob o desafio da competição nacional e internacional.


 


O boletim do Leite de janeiro último, do CEPEA – ESALQ/USP, em sua reportagem especial, destacou que 2009 foi um ano com “Exportações de 2004 e Importações de 2001”. Esta afirmação é emblemática, para os agentes do setor, especialmente para a CNA e para a Confederação Brasileira das Cooperativas de Laticínios – CBCL, pelas medidas antidumping que conquistaram, face às elevadas e deletérias importações de leite, em vista do forte subsídio na origem.


 


O aumento das importações de 2009 e o declínio das exportações responderam pelo fraco desempenho do setor, cujos preços vieram a melhorar somente a partir de novembro. Ainda assim, porque houve queda da produção Argentina, em vista das adversidades climáticas, e o estabelecimento de licenças não automáticas de importação, imposta pelo governo brasileiro, limitou os ingressos de leite no País.


 


A balança comercial brasileira de produtos lácteos registrou déficit de US$ 114 milhões de dólares, com exportações de US$ 148 milhões e importações de US$ 262 milhões. As importações pelos portos capixabas somaram US$ 98 milhões, o que significa 38% das importações totais.


 


Este é um fato instigante, porquanto não fossem as limitações nas licenças de importações, teria entrado muito mais leito pelos portos capixabas, em vista dos incentivos prevalecentes.


 


E aí vivenciamos um dilema, cuja solução deve ser buscada para não inibir as transformações que o setor se dispõe e começa a fazer. Os incentivos se contrapõem às medidas antidumping e às assimetrias tributárias remanescentes no setor leiteiro capixaba, vis à vis as práticas dominantes nos estados produtores do Sudeste, relativas ao ICMS.


 


E até nisto a cadeia produtiva, especialmente as cooperativas de laticínios, precisa convergir. Enquanto isto não acontece, as importações continuam e os desequilíbrios competitivos permanecem. O desafio, portanto, está posto: promover o rearranjo do setor, aperfeiçoando a logística de captação, processamento e distribuição e, simultaneamente, equacionar assimetrias internas e externas no mercado do leite.


                 


 


 


 


Wolmar Roque Loss


Eng.º Agr.º – Msc. Em Economia Rural e Desenvolvimento Econômico


 


Luiz Son


Administrador de Empresas, com foco em Meio ambiente e Negócios


 

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