Volta e meia ressurge na imprensa notícias e artigos que tratam da renda agrícola, como sinônimo de desempenho e dinamismo do setor. Nessa linha, avança-se sobre conceitos de PIB, valor da produção e renda agrícola, como se fossem sinônimos. Pior ainda fica quando se relaciona renda agrícola com resultado econômico do setor, confundindo-a com receita líquida.
Ainda na última segunda-feira, o site “Campo Vivo”, reproduziu uma matéria interessante do Jornal o Estado de São Paulo, com o título “Renda Agrícola Volta a Nível pré-crise”, onde se aborda apropriadamente a questão, mas deixa transparecer que os resultados em 2010 serão mais favoráveis às lavoura permanentes, comparativamente à produção de grãos, e cita o posicionamento da RC Consultores, como fonte da matéria.
Destaca como exemplo o café e a cana de açúcar que, neste ano, invertendo as posições, terão resultados superiores aos dos grãos, cujo desempenho vinha liderando as receitas do setor nos últimos anos.
Para os menos avisados, a matéria pode levar ao entendimento de que a renda agrícola atingiu o nível pré-crise, o que leva à suposição de que os produtores de cana de açúcar e de café estão numa situação confortável neste ano, igual à situação anterior à crise e, comparativamente, em posição melhor do que os produtores de grãos.
Na verdade, nada se pode concluir sobre os resultados econômicos das atividades do setor. E a realidade dos fatos mostra isso. Os preços agrícolas para a maioria das atividades agropecuárias estão muito inferiores aos níveis pré- crise. Café, soja e milho certamente encontram-se na pior posição de preços relativos dos últimos anos. Pecuária de corte também. Talvez uma das poucas exceções seja a cana, cuja recuperação dos preços do etanol e do açúcar permitiu praticar preços melhores aos produtores. Portanto, o que está influenciando a recuperação da renda bruta do setor são os níveis de produção alcançados, muito mais do que os preços.
Nesta linha, se os custos subiram e os preços caíram, e isto fica evidente no Espírito Santo com os prejuízos dos cafeicultores, então a liquidez dos produtores está substancialmente pior do que antes da crise.
Não é sem razão que, embora o setor agrícola tenha batido sucessivos recordes de produtividade e de produção, a situação de liquidez dos produtores piorou: Suaram literalmente a camisa, produziram muito nesses últimos anos e estão, em média, capturando cada vez menos renda líquida em suas atividades. Muitos amargam prejuízos, às vezes não contabilizados por desconsiderarem a depreciação e o rendimento mínimo sobre o capital imobilizado.
Os grandes números explicam: Para uma renda bruta, equivalente ao valor total de produção de R$ 175 bilhões (usando os números da mesma RC Consultores), a dívida contratada já ultrapassa os R$ 150 bilhões. Neste diapasão, os produtores estão trabalhando de bandido. A essa dívida estrutural se somam os custos sistematicamente crescentes, também estruturais, em salários e insumos. Reproduzindo o mais do mesmo na política agrícola, não evitaremos as dificuldades do setor. Mais sustentação de preços, melhor infraestrutura de escoamento da produção, incentivos às exportações, menos tributos e medidas compensatórias ao protecionismo nos países desenvolvidos devem ser a tônica das novas medidas de apoio ao setor.
Wolmar Roque Loss
Engº Agrº – MS em economia rural e Desenvolvimento econômico
(wolmar.loss@hotmail.com)

