CRÔNICA – Encantos pelas terras de São Rafael

por admin_ideale

 


Alguns ipês floridos colorem minha viagem. A vila da Fazenda Três Marias surge à beira da rodagem com suas casas campesinas que lembram vagamente o mundo getulista. Tenho adoração por atmosferas rurais. Uma cerração toma conta dos muitos caminhos: chovera de véspera. As vacas amojadas pastam, o capim densamente verde anima os produtores e o cafezal ensaia uma florada. Agrada-me esse mundo rural, campestre, ainda com ar de “certa inocência”, aspecto rarefeito no mundo contemporâneo.


 


Afoitamente, resolvera dar um pulo no Distrito de São Rafael, espécie de espaço desejado desde os primeiros momentos em que cheguei a Linhares. Algo me dizia de forma silente: “Dê um pulinho em São Rafael… Você com certeza não vai se arrepender”. O deputado Atayde Armani sempre segredou que São Rafael tem uma capacidade esplêndida de manter suas tradições, sua história, sem perder o compromisso com o novo. Fui tocado por sua louçã.


 


Fui auscultando conselhos quando, de repente, a oportunidade surgiu. E cá estou principescamente protegido pelas bonitas serras e as muitas pedras que lembram as rochas zelosas de lugarejos governados por mãos de imigrantes italianos. Os rostos que passam indicam faces de netos e bisnetos de imigrantes. Sou confessional: sempre nutri um entusiasmo intenso pela colonização italiana em terras do Espírito Santo, todavia venho de ninhos lusitanos, guardo Portugal nas profundezas assustadoras do coração – sim, o coração tem lá suas profundezas assustadoras.


 


Meu cicerone pelas terras de São Rafael é o interessante Cloves Tessarolo, líder comunitário, corado de tanto trabalho, comerciante que sedimenta condições de extrema sociabilidade. É ele quem me leva a conhecer as muitas partículas de São Rafael. Em muitos momentos, coloca-me literalmente em estado de graça. E diz, sem maiores rodeios: “Você precisa conhecer com mais detalhes a extraordinária história desse distrito”. Faço meu périplo. Passo por inúmeras capelinhas que denodam o espírito cristão da população.


 


Gosto da forma branda com que Cloves fala de suas muitas paragens. Tem a mansidão e a compreensão dos historiadores autodidatas. Com enorme candura, ele me leva para conhecer Valdir Humberto Cardoso que, com zelo, no quintal de sua casa, guarda uma bomba de combustível Texaco, norte-americana, fabricada pelos idos 1930, marca impressionante na história de São Rafael.


 


Homem de ótima têmpera, Valdir não se demorou: “Eu vivo a aventura do passado… gosto de resguardar essa herança deixada pelos meus antepassados”. É ótimo sentir esses sinais de amor ao passado, e falo em passado como condição de permitir o presente. A história tem de ter o espírito pacificador, jamais deve surgir como algo factual, solto, sem um ideário. Na verdade, a história tem fundamentalmente o papel de acenar para a construção de um futuro interessante. Ela é guardiã para novos caminhos. Não creio que a história possa ser a legenda para todas as conclusões, claro que falo de ilações: é bom que o historiador tenha lá sua independência.


 


Interessante, para os nostálgicos (e são muitos!), todo o tempo passado foi melhor. Duvido dessa verdade posta pelos limites do tempo. São Rafael protege seu passado, mas aposta imensamente no futuro. É ótimo sentir-se protegido pela história sem perder a “boa fúria” do futuro. O passado em excesso costuma acachapar; e quem lhes fala essas coisas poucas coisas é um cronista com formação historiográfica.


 


Passeio por boas horas ante São Rafael. Vi pela casa de Helder Simon fotos interessantes do processo de dominação das muitas matas na década de 20 do século passado. Mostrou-me com orgulho o assoalho de sua casa feito de jequitibá para a alegria de Alexandre Giacomin, habitual conviva destas terras. Helder e sua família governavam-se de felicidades pelo alto da serra. Habemus São Rafael!


 


Gosto de me maravilhar com os mistérios. Na Bíblia Sagrada, o Arcanjo São Rafael é citado no Livro de Tobias, que faz parte do Antigo Testamento. Foi o Arcanjo enviado por Deus para curar a cegueira de Tobias e acompanhá-lo numa longa e perigosa viagem para conseguir uma esposa. Rafael, junto a Miguel e Gabriel simbolizam a fidelidade, o poder e a glória dos anjos. Os pioneiros que conduziram a saga da criação do povoado de São Rafael foram felizes no tributo. 


 


 


Antonio Bezerra Neto


Secretário de Cultura de Linhares

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