Pecuária eficiente

por admin_ideale


 


Pecuaristas de Santa Teresa, como Luiz Galetti (foto), inovam sistema de produção leiteira e conseguem ótimos resultados


 


Nem mesmo os produtores rurais da região serrana capixaba imaginavam que o espírito conservador, herdado de seus pais e avós, não iria resistir a um novo e eficiente modelo de pecuária leiteira. Acostumados ao sistema extensivo de produção, com baixa produtividade e muita área utilizada para pastagens, 16 produtores do município de Santa Teresa resolveram modificar o método de trabalho e não se arrependem nenhum pouco.


Tudo começou em fevereiro de 2008, através do projeto Leite com Técnica, desenvolvido pelo Instituto Federal do Espírito Santo – Ifes – Campus Santa Teresa – (antiga Escola Agrotécnica Federal), em parceria com a Prefeitura Municipal de Santa Teresa e a Associação de Criadores e Produtores de Gado de Leite do Estado. A ideia segue a linha de trabalho do programa Balde Cheio da Embrapa Pecuária Sudeste, vinculada a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. O coordenador do projeto no município, o engenheiro agrônomo e professor do Ifes, Ismail Ramalho Haddad, explica que o objetivo do trabalho vai além do aumento da renda dos pecuaristas. “Existe o acréscimo do faturamento da propriedade, mas, antes disso, conseguimos aumentar a esperança do produtor em viver de sua propriedade, fixar a mão-de-obra no campo e elevar a sua auto-estima. Assim, os filhos dos produtores olham a atividade rural com satisfação e se interessam”, ressalta.


 


Na propriedade do seu Jair Milanezi não foi o filho que se interessou pelo trabalho no campo, e sim o genro, José Edmar Dondoni. A  atividade de maior área ocupada na propriedade do Jair é a cafeicultura, mas é o leite que está animando a família nos últimos meses. Antes dele aderir ao projeto, a produção leiteira era baixa. Em uma área de oito hectares de pasto (braquiária), ocupadas por nove vacas, sendo seis em lactação, produzia-se, em média, 16 litros de leite por dia. Depois que o pecuarista começou a seguir as orientações técnicas divulgadas no projeto, há 14 meses, os números mudaram. Hoje são 0,8 hectares (ha) destinados para pastagens, com 0,6 ha da variedade mombaça e 0,2 de tifton, e ainda uma área para o cultivo de cana que serve como suplemento alimentar em épocas de seca. A produção de sete vacas alcançou a quantidade de 100 litros de leite diários, mas o potencial é maior. “A meta é 200 litros”, afirma seu Jair, ao lado do seu “braço direito”, o genro Edmar, que antes estava nas estradas e hoje voltou para o campo. “Saí de trás de um volante e vim inseminar vaca”, brinca o ex-caminhoneiro, que fez um curso de inseminação artificial e já realiza o procedimento nos animais da propriedade.


 



 


 



     Jair e Edmar: família se une confiante em novo sistema pecuário


 


 


Mas a mudança de sistema na propriedade do Seu Jair exigiu muito esforço e dedicação. “O produtor precisa ter vontade. Tirar leite de manhã e de tarde, todo dia, não é para qualquer um”, diz o proprietário. Ele e seu genro recebem a orientação técnica do engenheiro agrônomo do Ifes, Thiago Lopes Rosado. Semanalmente, o profissional visita a propriedade para acompanhar os trabalhos. Além da orientação no campo, o agrônomo ainda auxilia no gerenciamento da atividade, como no controle de receitas e despesas. “O produtor, às vezes, não sabe quanto está gastando”, destaca Rosado, que também analisa as planilhas de controle de chuvas e temperatura preenchidas pelo produtor. “É outro fator muito importante da atividade. A irrigação, por exemplo, é realizada de acordo com a quantidade de chuvas e os índices de temperaturas e umidade do local”.


 


Esta realidade vivida pelos produtores rurais serve de sala de aula para os estudantes do curso técnico em Agropecuária do Ifes, localizada em São João de Petrópolis, a 21 quilômetros da cidade de Santa Teresa. Atualmente, 11 alunos participam do projeto Leite com Técnica. E um fato que chama atenção é que são 10 meninas e apenas um menino. Uma delas é a Jessica Conceição Barbosa do Carmo. Com 16 anos de idade e há dois no projeto, ela já demonstra habilidades e o gosto pela atividade. “Quero ajudar os produtores a melhorarem a auto-estima e a produção leiteira e esse projeto visa muito esse objetivo. Além do conhecimento na sala de aula, nós podemos ter esse contato, ver a realidade dos pecuaristas e acompanhar as orientações dos técnicos”, diz a jovem. Oportunidade vivida também pela estudante Ivony Ardizzon. Natural do município de Rio Bananal, no norte do Estado, a jovem viu no projeto uma grande oportunidade. “O que a gente vê no curso, às vezes, é muito rápido. No campo, nós podemos aprender na prática mesmo. A técnica aprendida em sala não é receita de bolo. Tem que praticar e aprender a lidar com o pequeno produtor”, reforça.


 


Quem já trilhou este caminho foi o Willian Miranda Santos. Formado no curso técnico em agropecuária pelo Ifes de Santa Teresa, hoje ele presta assistência técnica aos produtores atendidos pelo projeto. Na propriedade da Dona Ormi Maria das Graças Mostuen Zaneti, em Santo Hilário, Willian já é de casa, mas não deixa de acompanhar as tarefas. “Tenho que cobrar o dever de casa. As técnicas utilizadas são simples, mas é necessário empenho para que os resultados apareçam”, ressalta. Inicialmente, os pecuaristas adotam nas suas propriedades um modelo de trabalho utilizando de forma mais eficiente os recursos que eles já possuem na roça. Há cinco meses, Dona Ormi entrou no projeto e, apesar do pouco tempo, já observa com entusiasmo os resultados. “No começo fiquei com certa resistência em modificar a maneira de trabalhar, mas agora já posso observar os resultados e só vejo boas perspectivas”, diz. Ela conta que a propriedade chegou a ter cerca de 22 vacas, em uma área de 10 hectares, e a produção total era de 30 litros por dia. Hoje, os 1,2 hectares ocupados com o capim-mombaça são utilizados por 10 vacas, oito em produção, que resulta em uma média de 110 litros de leite por dia. Parte desta produção é destinada para fabricação de queijo branco feito pela família. Com isso, a pecuarista consegue agregar valor ao seu produto. Com um custo de produção do litro de leite aproximado de R$0,27, Dona Ormi, assim como seu Jair e seu genro Edmar, conseguem comercializar o litro, transformado em queijo, por R$1,00, enquanto o leite in natura é vendido na região por R$0,70/litro. “A renda familiar aumentou”, diz a produtora, satisfeita.


 



 



Animais utilizam menores áreas, mas aumentam produtividade leiteira


 


 


Preocupado em não vender milagres, o professor Ismail explica que esse aumento na produção leiteira exige muito esforço, disciplina e planejamento. “O produtor precisa entender que é necessário trabalhar o pasto como uma cultura. Ele necessita de adubação, irrigação, calagem de condução, etc. Esse é o primeiro passo”, destaca. A adubação utilizada pelos pecuaristas segue as orientações técnicas. Uma vez por ano é feita a calagem e as adubações fosfatadas, potássicas e com micronutrientes. E todo mês, um piquete, parte da área dividida para rotação dos animais no pasto, recebe a adubação nitrogenada. Esse sistema é seguido também pelo produtor Luiz Galetti, na localidade de Santo Antonio do Canaã, onde a pecuária de leite é a atividade principal da família desde gerações passadas. “Meu pai tirava leite nesta propriedade. Chegamos a ter, em uma área de 39 hectares, 100 animais, 40 em lactação e nossa produção era de 90 litros de leite por dia, em média”, lembra Galetti. Após a adesão das técnicas recomendadas, o produtor, hoje, produz diariamente a mesma quantidade de leite, mas com uma diferença. A área utilizada é de apenas um hectare, além dos três mil metros quadrados de cana para suplementação e a quantidade de animais diminuiu para nove vacas, seis em fase produtiva. “Tá sobrando capim nesta área”, diz o produtor, que consegue uma renda livre de R$1.800,00 com a atividade leiteira. Adotando o sistema de produção intensiva na pecuária, Galetti ainda conseguiu liberar áreas para outras atividades, inclusive adequação ambiental. “Esta é uma exigência do projeto. O produtor precisa ter a consciência de preservar, irrigar com outorga d’água. Produzindo de forma intensiva, em menores áreas, sobra terra para que o produtor faça sua adequação ambiental”, explica Ismail.


 


A realidade da pecuária brasileira é bem diferente das propriedades do município de Santa Teresa que participam do projeto Leite com Técnica. O sistema tradicional, com o uso de grandes áreas para poucos animais, ainda predomina no território nacional. “A produção leiteira atual no Brasil é de aproximadamente 1.000 litros de leite / hectare /ano. Com a aplicação de tecnologia na atividade pode alcançar o índice de 90.000 litros de leite por ano em cada hectare”, calcula Ismail, citando o exemplo de uma propriedade atendida pelo projeto Balde Cheio, no município de Valença, no Rio de Janeiro, que já atingiu este índice. Os três produtores teresenses estampam no rosto a alegria por terem acreditado na mudança da realidade de suas famílias com a utilização de técnicas simples e já existentes. Um novo modelo que, no Espírito Santo, está apenas começando.


 


 



 


Franco Fiorot

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