Pimenta no cacho não é pimenta no armazém

*Erasmo Fernandes

por Portal Campo Vivo
Foto: Erasmo Fernandes

Estamos entrando em um dos momentos mais importantes do calendário da pimenta-do-reino brasileira.

No Pará, a colheita caminha para o fim, com bons resultados em diferentes regiões. Na Bahia e no Espírito Santo, ela está começando.

No último artigo, prometi descer para dentro do diagnóstico: raiz, perfil de solo e produtividade que some sem ninguém entender o motivo. Essa conversa continua. Mas a safra chegou, e existe um assunto que não pode esperar.

Antes, uma leitura de safra. Rodando propriedades e conversando com produtores, técnicos e compradores, trabalho com o Pará fechando perto de 25 mil toneladas, o Espírito Santo em torno de 60 mil e a Bahia perto de 15 mil, podendo passar disso com as áreas novas entrando em produção. Algo próximo de 100 mil toneladas no Brasil.

Não é estimativa oficial. É a minha leitura de campo. Existem projeções no setor bem acima disso, mas, pelo que vejo nas lavouras, prefiro trabalhar com um número mais conservador até as colheitas terminarem.

Seja qual for o volume confirmado, a pergunta mais importante agora é outra: quanto dessa pimenta vai chegar ao armazém com rendimento e qualidade.

Porque a produtividade que a gente vê na planta não é a produtividade que vai para o armazém. Entre uma e outra existem o ponto de colheita, o secador e o saco.

Ter pimenta no cacho não significa que chegou a hora de colher. A necessidade de caixa, a falta de mão de obra ou a expectativa de preço levam muita gente a antecipar. E colher cedo tem um custo que não aparece na hora.

Fruto formado não é fruto maduro. No ponto, com os primeiros grãos amarelando e avermelhando no cacho, são cerca de 2,8 a 3 quilos de pimenta verde para fazer um quilo seco. Colhida verde demais, essa conta vai para 3,4, 4 e até 5 quilos.

Pense em 30 toneladas de pimenta verde. No ponto, elas viram perto de 10.300 quilos de pimenta seca. Colhidas cedo, a 4,2 para 1, ficam em torno de 7.100. São mais de 3 mil quilos a menos. Com a pimenta a 25 reais, perto de 80 mil reais que ficaram para trás, com a mesma equipe, o mesmo peso colhido e o mesmo valor pago na colheita.

O levantamento do Campo Futuro, da CNA, mostrou rendimentos de 3 para 1 em Itabela, 3,5 em Jaguaré e 4 em São Mateus. Cada região tem sua variedade e sua realidade, mas o recado é claro: rendimento é dinheiro.

E a maturação não é uniforme. Muda entre talhões, variedades, plantas e até entre cachos da mesma planta. Por isso o início da colheita não se decide pelo calendário. Se decide andando na lavoura, cacho por cacho, e colhendo em passadas.

Depois que o cacho sai do pé, começa a segunda metade da safra.

Pimenta verde amontoada esquenta em poucas horas, fermenta, escurece e perde valor. A regra que eu passo para os produtores é simples: colhida hoje, no secador hoje. Sobre lona, em sacaria limpa, nunca em saco de adubo ou de defensivo.

No secador, o que manda é temperatura controlada e secagem uniforme. Fumaça em contato com o grão pode deixar resíduo e alterar cor e aroma. E umidade não se acha, se mede: a pimenta precisa sair abaixo de 13%, medida com aparelho e amostra do lote, e esfriar antes de ir para o saco.

Um detalhe que muita gente esquece: secar bem não limpa o que veio do campo. Se o lote chegou contaminado, o secador não resolve.

Estamos falando de um alimento que vai para dezenas de países. E o comprador de hoje não compra só pimenta: compra laudo, padrão e regularidade. A qualidade que se perde na reta final dificilmente volta, e aparece na classificação, na negociação e no preço.

O preço da pimenta depende da oferta e da demanda mundial, e isso nenhum de nós controla. Mas o rendimento e a qualidade do que sai da nossa lavoura, sim.

O Brasil avançou muito: irrigação, nutrição, manejo biológico, produtores olhando para indicadores. Essa evolução precisa aparecer também no saco de pimenta que entregamos ao mercado.

Eu sei da ansiedade. Foram meses de trabalho e investimento esperando esse momento. Mas a pressa não pode destruir em poucos dias o que levou um ano inteiro para ser construído.

A colheita não termina quando o cacho sai da planta. Termina quando todo aquele potencial vira produto valorizado no armazém.



Erasmo Fernandes
Eng° Agrônomo, produtor rural, especialista em pimenta-do-reino e pós-graduado em bioinsumos


A Campo Vivo não se responsabiliza por conceitos emitidos nos artigos

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