O Gigante de Pés de Barro: A Vulnerabilidade Estratégica do Agro Brasileiro aos Insumos Externos

*Dr. José Roberto Fontes

por Portal Campo Vivo
Foto: Terra Fértil

Hoje, resolvi resgatar um ensinamento bíblico, que veio a nós de uma metáfora envolvendo o Rei Nabucodonosor e seu sonho, de onde veio a expressão idiomática que descreve “O Gigante de Pés de Barro” como algo ou alguém com aparência de grande força, poder ou riqueza, mas que possui uma fraqueza oculta, estrutura instável ou falha de caráter que pode levá-lo à destruição facilmente. É assim que vejo meu imenso e poderoso Brasil Agrícola neste momento.

O Brasil consolidou-se como uma das maiores potências agrícolas do planeta, batendo recordes sucessivos de produtividade em diversas culturas, sem falar na qualidade superior dos alimentos que produz. No entanto, esse sucesso esconde uma fragilidade crítica: a profunda dependência de insumos importados para manter suas engrenagens girando. Atualmente, o país importa mais de 85% das matérias-primas necessárias para a fabricação de fertilizantes e, por isso, este é sempre o vilão da alta do custo de produção e, consequentemente, da alta do preço dos alimentos e outros produtos para o consumidor final, aliás “Tudo vem do Agro”.

A base da nutrição vegetal nas lavouras tropicais brasileiras repousa no tripé NPK (Nitrogênio, Fósforo e Potássio). A situação é particularmente sensível no caso do potássio, onde cerca de 98% do consumo nacional vem do exterior. E isso não é porque não temos esta matéria prima em solos brasileiros. Proibimos a extração em solos brasileiros por questões ambientais, mas importamos produtos extraídos em reservas indígenas do Canadá, por exemplo. Mas esta conversa merece tempo maior, em outro artigo. Logo, essa configuração coloca o produtor brasileiro à mercê de variáveis que ele não controla, seja na Geopolítica (Conflitos em regiões fornecedoras chaves do Potássio, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, ou de Petróleo no caso do oriente médio, que também enfrenta uma grande guerra, tudo isso impactando diretamente a oferta e os preços), seja na “dolarização” dos insumos, que faz com que qualquer desvalorização do Real encareça drasticamente o custo de produção, ou seja na Logística que o Brasil enfrenta, com altos custos de transporte e gargalos no escoamento, o que agrava a volatilidade dos preços internos.

E, como não há nada tão ruim que não possa piorar, vemos no Governo Brasileiro um discurso de “Soberania Nacional” que não só se encontra totalmente desconexo do tema como também fica só na “politicagem”. Mesmo ciente desse risco à segurança alimentar e econômica, o Brasil tem buscado alternativas pouco resolutivas para reduzir essa exposição. Criamos o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), que visa elevar a produção nacional de fertilizantes dos atuais 7 milhões para 40 milhões de toneladas, reduzindo a dependência externa para patamares próximos a 50%, mas até agora, com ações tímidas e interesseiras. Outra importante ação, os Investimentos em Infraestrutura, para a retomada de investimentos pela da Petrobras em fábricas de nitrogenados, cujo PNF projeta atender até 35% da demanda nacional até 2028, custa a sair do papel e, mesmo assim, sem garantias de efetividade. Quem não lembra da prometida fábrica de nitrogênio, que chegou até a ter área demarcada na localidade de Palhal, em Linhares, na década passada e virou história ruim de se contar?

Mas, como “o campo não para”, os Agricultores abriram as portas para os Bioinsumos, como uma ação efetiva e certa para vencer esta guerra. Em 2025, o país registrou um recorde de 162 mil novos bioinsumos liberados para comercialização, sinalizando uma transição para métodos que utilizam recursos biológicos locais em substituição aos químicos importados.

Na prática, os bioinsumos não substituem o NPK simplesmente fornecendo os minerais “prontos” como o adubo químico faz, mas sim ativando processos biológicos que tornam esses nutrientes disponíveis para a planta a partir do ar ou do próprio solo.

Em vez de usar ureia ou nitratos sintéticos, utiliza-se a Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN), com uso de Bactérias específicas (como as do gênero Bradyrhizobium e Azospirillum), que capturam o nitrogênio do ar — que é abundante mas as plantas não conseguem absorver sozinhas — e o transformam em formas que as raízes podem utilizar. Em vez de usar o Fósforo, utilizamos os Solubilizadores de Fosfatos, que “libertam o fósforo, em grandes quantidades nos solos brasileiros, mas que está “preso” em minerais e a planta não consegue absorvê-lo. Assim, os bioinsumos compostos por microrganismos solubilizadores (como certas espécies de Bacillus e Pseudomonas) produzem ácidos orgânicos que “derretem” as ligações químicas do solo, liberando o fósforo para a planta. Em vez de usar o Potássio (K), aplicar os bioinsumos, próprios para Mobilização e Absorção, aumentando a eficiência da planta em encontrar e absorver o potássio já presente na terra ou em restos orgânicos (caso dos Fungos micorrízicos e bactérias promotoras de crescimento, que expandem o sistema radicular, produzindo raízes maiores e mais finas) e melhoram o transporte de minerais para dentro dos tecidos vegetais.

Na prática, outra grande vantagem no uso desta tecnologia é que o NPK químico tem efeito imediato e o bioinsumo tem efeito cumulativo e melhora a saúde do solo a longo prazo. Sem falar que a substituição biológica pode reduzir o custo de produção significativamente, pois diminui a necessidade de insumos importados, além da sustentabilidade proporcionada que, diferente dos químicos, os biológicos não causam salinização do solo nem poluem lençóis freáticos.

Assim, infelizmente, a agricultura brasileira vive o paradoxo de ser globalmente competitiva na saída (exportação), mas extremamente dependente na entrada (insumos). A transformação do Brasil em uma potência verdadeiramente autossuficiente exige que o país não seja apenas o “celeiro do mundo”, mas também o senhor da tecnologia e dos recursos que nutrem seu solo.



Dr. José Roberto Fontes
Eng° Agrônomo, Doutor em Fitotecnia, Consultor Agrícola na área de Certificações Comerciais / Compulsórias e Gestão Integrada da Qualidade – Germinar Consultoria e Assessoria Ltda.


A Campo Vivo não se responsabiliza por conceitos emitidos nos artigos

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