ESPECIAL – Proteção no campo

por admin_ideale

Fazenda Santa Maria, Sítio São Sebastião, Fazenda São José, Sítio Nossa Senhora da Aparecida, Fazenda Santa Rosa, Sítio Santo Antônio, Fazenda Santa Clara. Pelo interior do Estado do Espírito Santo, é comum ver propriedades rurais com nomes de santos. A denominação de fazendas e sítios tem forte influência da Igreja Católica, principal religião dos imigrantes que povoaram as terras capixabas no passado.

Em Linhares, no norte do Estado, por exemplo, possui alto índice de desenvolvimento e um forte polo do agronegócio nacional. Com grande dimensão territorial, o município possui muitas propriedades na área rural e essas, em sua maioria, trazem em seu nome homenagens a santos. De acordo com a escritora e historiadora, Maria Lúcia Grossi Zunti, como foi fundada por portugueses, país com tradição católica, Linhares é uma cidade onde esta religião é predominante. “Desde sua fundação, a influência da religião sempre predominou muito na cidade, como acontece até os dias atuais”, destaca. A primeira Igreja Católica do município foi construída em 1817 e teve como padroeira Nossa Senhora da Conceição.

Em Sooretama, também no norte do Estado, uma das fazendas que carrega há anos o nome de um santo é a Fazenda Santa Cecília, na localidade de Córrego do Rodrigues. Gerenciada por uma família de católicos, a propriedade com cerca de 44 alqueires cultiva café e tem esse nome em homenagem a padroeira da comunidade. De acordo com o proprietário, José Carlos Bosi, quando comprou a fazenda do seu tio, Angelo Bozi, em 1986, ele contava que o nome “Santa Cecília” foi dado à fazenda devido a uma promessa. “Uma vez meu tio e meu pai, Carlos Bozi, foram atravessar o Rio São José e quase foram carregados pela força da água. Como promessa, caso conseguisse se salvar, meu tio prometeu que daria uma santa à comunidade, que no caso seria a Santa Cecília. Ele cumpriu a promessa e a partir disso a padroeira da comunidade foi Santa Cecília, a mesma que deu o nome à fazenda desde aquela época”, lembra  o produtor José Carlos Bozi.

E a religiosidade na família Bozi vem de geração a geração. Na fazenda ainda é possível perceber alguns aspectos que remetem e carregam o nome da Santa Cecília. Um exemplo disso é o galpão, que tem na sua parede o nome da fazenda pintado. Quem chega ao local, instantaneamente já consegue identificar o nome da propriedade com referência a santa. Até mesmo quem passa pela região consegue avistar de longe a propriedade da família e identificar pela pintura na parede. Além disso, os veículos e o ônibus utilizados no trabalho são adesivados com o nome “Fazenda Santa Cecília”.

As historiadoras e professoras de História, Márcia Almeida Lima e Maria Aparecida Batista, acreditam que o nome dos santos nas fazendas era motivado pela devoção das famílias e as dificuldades que tinham de ir até as igrejas na cidade. Por isso, cada uma tinha sua forma de adoração e acabavam dando o nome da propriedade em homenagem aos padroeiros e assim realizavam suas adorações na própria fazenda. Mas as historiadoras ressaltam que nos dias atuais isso está mudando. “As novas fazendas já estão mais ligadas a questão familiar. Hoje é muito mais comum ver, por exemplo, uma fazenda com o sobrenome da família, com essa relação familiar, do que era antigamente, quando em sua maioria, as fazendas faziam devoção há algum santo”, afirma a professora Márcia Almeida.

Para o padre Selésio Petri, a religiosidade está nas pessoas e cada proprietário, seja ele de uma empresa, de uma fazenda, de um sítio, carrega a sua própria religiosidade. “Hoje a questão da religiosidade é mais popular. Os empresários, donos de propriedades não pensam mais apenas na questão religiosa e quando compram uma nova terra acabam não usando mais o nome de algum santo, porque caso venda essa terra, pode ser que o novo dono não seja tão religioso e queira mudar tudo, o que pode ser um processo complicado. Hoje se pensa mais na religiosidade popular do que antes”, destaca Petri.

Apesar das mudanças sociais constantes nas civilizações, os nomes das fazendas capixabas com menção aos santos católicos perpetuam na história e cultura rural e ainda deixarão por muitos anos marcada a influência do catolicismo dos imigrantes europeus na agricultura estadual.

 

 

Matéria publicada na Revista Campo Vivo – edição 24 – Dez 2014/Jan/Fev 2015

Redação Campo Vivo

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