Não é de agora que se fragiliza a base de estatísticas para favorecer o discurso dialético para enganar os menos esclarecidos e disseminar “verdades” que são convicções ideológicas, não fundamentadas nos fatos. Reproduzem a mentira, tantas vezes quanto necessári para tranformá-la em “verdade”, com o propósito de enganar o povo e se perpetuar no poder. Esta, embora grave, não se revela o pior dos mundos. O problema mais grave é quando se aparelha as instituições não apenas para servir aos insteresses políticos, mas para esconder a realidade de que historicamente tais instituições são fonte de informações e estatísticas de real interesse público.
Esta é uma tendência que, infelizmente, grassa pelo país, transbordando da União para Estados e até mesmo Municípios. Vergonhosas estratégias para justificar incompetência e enganar os cidadãos.
O aparelhamento empobrece as instituições porque coloca uma venda em tudo o que não é de interesse do poder divulgar. Assim, dominam a produção de informações falsas, e as divulgam como verdadeiras, e mais, escondem verdades, ou impedem sua produção técnico-cientifica para não escancarar os equívocos do Governo.
Vamos aos fatos. Quantas vezes utilizamos as estatísticas do IBGE, seja para fundamentar estudos, utilizando-se de sua base de dados, seja para analizar o desenvolvimento setorial ou regional, seja para elaborar projetos específicos de captação de rercursos ou de financiamento de custeio e investimento, seja, para estudar a distribuição de renda, os salários, as ocupações produtivas, enfim muito do que é essencial para sinalizar onde estamos, para onde vamos e orientar para onde queremos ir. Estes são os princípios basilares do Planejamento Estratégico, cuja participação da sociedade no processo é enriquecida com informações confiáveis, acima de qualquer suspeita.
No último dia 10, tornou-se pública a decisão da diretoria do IBGE de não divulgar dados da Pesquisa da PNAD Contínua (Pesquisa por Amostragem Domiciliar que envolve uma amostragem bem mais ampla, com domicílios distribuidos em todo o País).
Veja o que diz o comunicado da Diretoria do IBGE: … no início do mês de abril o IBGE foi questionado por parlamentares acerca da metodologia de cálculo da renda domiciliar per capita na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), pesquisa que substituirá aquela que tradicionalmente apurava esta variável.
Entre os questionamentos destacava-se, particularmente, aquele relativo aos intervalos de confiança das estimativas por Unidade da Federação…. . Na verdade, no discurso lógico referiam-se à nova regra de distribuição do FPE que vigorará a partir de 2015, dependente da PNAD Continua.
Mas o problema verdadeiro, inquestionável, é que a PNAD Continua passou a mostrar uma realidade que não satisfazia ao Governo Federal: Na quinta-feira foram divulgados dados sobre o mercado de trabalho. Eles mostraram que a taxa média de desemprego no Brasil ficou em 7,1% em 2013. Os números por regiões, no entanto, mostram distorções: no Sul, por exemplo, está em 4,2%; no Nordeste, em 9,5%. O mercado de trabalho melhorou nos últimos anos, mas o desemprego de jovens continua alto. No Nordeste, é de quase 20%.
O surpreendente, pelo inusitado, é que a justificativa forjada colocava a preocupação dos Deputados e Senadores (leia-se Hoffman) com o intervalo de confiança da distribuição da renda per capta entre as macrorregiões do País. Sinceramente, que dia que os Parlamentares se preocuparam com detalhes estatísticos? Que conhecimentos científicos eles teriam para questionar metodologia e estatística? Pessoalmente, acho até que alguns poucos têm, mas não é demérito nenhum para o Parlamentar desconhecer procedimentos metodológicos e estatísticas. A qualidade de seu serviço não se mede pelo conhecimento de metodologia e estatística e seu pelo comprometimento com suas propostas e seus eleitores.
A questão central, com essas interferências do Governo e com o aparelhamento das instituições, é responder até que ponto confiar nas estatísticas do IBGE, do IPEA, da CONAB, do Ministério do Planejamento, da Saúde da Educação, enfim, nas informações que emanam do Governo Federal. Se não temos a confiança necessária, a o compromisso de divulgação das estatísticas e estudos econômicos e sociais, como nos convencer de nosso próprio futuro? Nós estamos mesmo é no escuro. Não se avança na iniciativa privada e na sociedade se não sabemos para onde vamos, porque não teremos indicativos para onde queremos ir, tampouco, como vamos caminhar. Estamos mesmo é no escuro.
Wolmar Roque Loss

