ARTIGO – Feijão capitalista

por admin_ideale

Boa parcela da opinião
pública acredita que a comida do povo vem do agricultor familiar, enquanto o
agronegócio capitalista serve ao comércio exterior. Ledo engano. O equívoco
nasce de uma ideia antiga, superada. Hoje manda a integração produtiva no
campo.

A começar do ciclo
açucareiro colonial, no Nordeste, a historiografia consagrou distintas funções,
e certa oposição, entre a grande propriedade rural, dominante, e a agricultura
de subsistência, que vivia em suas beiradas. Existia, realmente, um dualismo.
Escritores famosos, como Caio Prado Jr., sempre descreveram a grande lavoura –
o latifúndio ou a plantation – como aquela destinada à exportação, de açúcar,
cacau ou borracha. Produzir alimento básico era coisa de pobre.

Quando chegou o ciclo da
mineração, no século 18, o deslocamento da população – a maioria escrava – rumo
ao Sudeste, exigiu fortalecer a produção de alimentos. Desde os pampas gaúchos,
dedicado à pecuária e ao seu valioso charque de carne, por todo o Centro-Sul
surgiram novos agricultores, animados por atenderem o consumo interno criado
nas atividades auríferas das Minas Gerais.

Mais tarde, na economia
cafeeira de São Paulo, já livre da escravidão, o colonato favoreceu o cultivo
de gêneros alimentícios, seja entre as ruas do cafezal novo, seja em áreas
destacadas da fazenda. Caminhava a economia livre. Mas a crescente demanda nas
cidades brasileiras trouxe à tona a questão do abastecimento urbano. Em 1901,
relatava Alberto Passos Guimarães – A Crise Agrária, 1978 -, quase 43% das
importações brasileiras, em valor, representavam produtos básicos, incluindo
feijão, fava, milho, arroz, banha e manteiga. Com escassez os preços
elevaram-se, estimulando os pequenos agricultores. Plantar comida passava a
oferecer lucro.

A partir da grande crise
mundial, dos anos 1930, a diversificação da economia brasileira, na cidade e no
campo, aprofundou-se. Décadas depois, com o forte êxodo rural alargando as
metrópoles, a necessidade do abastecimento nas periferias transformou
definitivamente a agricultura de subsistência em próspero negócio. Além do
tradicional arroz com feijão, os moradores do asfalto exigiam ovos, carnes,
verduras e legumes, frutas, leite; aos roceiros bastava produzir e vender. Daí
surgiram os Ceasas, sacolões, varejões e, claro, os supermercados. Mudou a
distribuição no varejo dos alimentos.

Mudou também, e muito, o
caráter da produção rural. Ela ganhou escala e tecnologia, cresceu em
produtividade, integrou-se às agroindústrias, aprendeu a comercializar, buscou
financiamento. O raciocínio guarda lógica: as cidades brasileiras jamais teriam
sido abastecidas – e bem ou mal o foram – sem uma grande transformação ocorrida
no campo. Que prossegue acelerada.

Nesse processo histórico,
as análises dualistas sobre a agricultura perderam razão. Sim, existem ainda os
tradicionais agricultores de subsistência, a maioria empobrecida no semiárido
nordestino. Enfraqueceu-se, porém, com a modernização agrária a antiga oposição
entre a grande e a pequena produção. Ambas, com tecnologia, passaram a ser
regidas pela lucratividade do mercado, seja interno, seja externo. Assim,
tornaram-se complementares, e muitas vezes se confundiram. Vejam alguns
exemplos.

Típica da velha família
rural, a banha de porco acabou substituída na cozinha pelos óleos vegetais. O
mais barato, de consumo popular, origina-se do esmagamento do grão da soja.
Pois bem, no Paraná e no Rio Grande do Sul, grandes plantadores da oleaginosa,
90% da produção advém de agricultores familiares, ligados às grandes
cooperativas exportadoras. Ou seja, a mesma agricultura que gera divisas
garante a fritura na mesa. Sem distinção.

No café, a maior parte da
safra brota das lavouras mineiras, grandemente ligadas às cooperativas. A
Cooxupé, a maior delas, aglutina 12 mil cafeicultores, sendo 80% pequenos
produtores rurais. Do embarque total de grãos nos pátios da cooperativa (2011),
perto de 15% se destinou às torrefadoras do mercado interno; a grande parte
seguiu exportada. Pequenos, juntos, ficam grandes.

Em cada ramo da
agropecuária nacional se pode verificar essa junção entre o agronegócio
capitalista e a produção familiar, sendo difícil separar, no destino, o mercado
interno do externo. Na cultura da cana, em que preponderam os grandes
usineiros, cerca de 70% do açúcar se exporta, mas o etanol, que enche o tanque
dos veículos, dos pobres principalmente, fica aqui dentro.

Quem produz frango, o
agricultor familiar ou o agronegócio? Resposta fácil: ambos. As empresas
frigoríficas representam grandes negócios, privados ou cooperativados; já os
avicultores, a elas integrados, são familiares.

E o feijão? A maioria da
produção, é verdade, advém de pequenos produtores. Estes, entretanto, não se
configuram mais como de subsistência, vendendo apenas o excedente. Que nada.
Espelham agricultores altamente tecnificados.

Nos Estados Unidos,
sabe-se, a mecanização da agricultura provocou, ao mesmo tempo, o aumento da
escala de produção e o fortalecimento da gestão familiar, preponderante por lá.
Tal processo se caracteriza, por aqui, especialmente em Mato Grosso, onde
enormes fazendas produzem soja e milho, nas lavouras tocadas pelos próprios
produtores e seus filhos. Negócios gigantes, familiares.

Essas histórias mostram
que ser familiar não necessariamente significa ser pequeno. E comprovam que pequeno
agricultor pode, perfeitamente, participar do agronegócio, quer contribuindo
para a exportação, quer alimentando o povo.

Pode acreditar: inexiste
oposição entre agricultura familiar e agronegócio. O feijão virou capitalista.

 

Xico Graziano,
ex-Secretário de Agricultura e atual Secretário do Meio Ambiente do estado de
S. Paulo

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