ARTIGO – Desafios do crescimento econômico

por admin_ideale

Em artigo publicado na revista IstoÉ, nesse final de ano, o economista
Ricardo Amorim faz uma análise interessante sobre o esgotamento do modelo de expansão
da demanda para estimular o crescimento econômico brasileiro.

Com crescimento de 1% neste ano em 2012, nosso “PIBinho” é o segundo
menor em toda a América Latina. Peru, Colômbia e Chile crescerão até quatro
vezes mais. De novo, não fosse o desempenho da agricultura e dos serviços,
teríamos um retumbante crescimento negativo.

O discurso da defasagem cambial para explicar o desempenho fraco da
indústria, principalmente a partir de 2008, não se sustentou porque tivemos uma
desvalorização do real de cerca de 35% e o setor declinou mais de 3% em 2012.

Para o economista, esse mau desempenho não se deve apenas à conjuntura
externa, mas ao esgotamento de um modelo de política econômica baseado na
expansão da demanda. O Brasil dobrou o crescimento médio do seu PIB a partir de
2004 aproveitando o aumento do consumo nacional e da demanda externa por
matérias primas, usando mão de obra e infraestrutura ociosas.

Sem a alternativa de
expansão da demanda interna, até mesmo pelo elevado endividamento dos
consumidores, decorrência da expansão sem controle do crédito, o que nos resta
é o aumento substancial do investimento e, simultaneamente, a elevação
generalizada da produtividade, para assegurar crescimento continuo e duradouro.

Não é de agora o
reconhecimento de que no Brasil, o investimento produtivo é muito baixo; não
chega a 19% do PIB. Ele é cerca de 50% maior nos nossos vizinhos, atingindo 30%
do PIB no Peru e 27% no Chile e na Colômbia, para ficar na América Latina e não
falar dos Asiáticos cujos percentuais são bem superiores.

Surge, então, uma
questão de fundo: Por que a formação bruta de capital físico é tão baixa no
Brasil? Ou seja, por que o investimento é baixo? Porque a poupança é baixa.
Dito de outra forma, os gastos correntes do Governo são elevados, paga-se
pessoal, outros custeios, juros e rolagem da dívida, e o resíduo, muito pouco,
vai para investimento. Cerca de 45 bilhões para um orçamento de mais de 1
trilhão de reais.  

Apesar de uma carga
tributária elevadíssima, nossos governos ainda gastam mais do que arrecadam,
consumindo, via empréstimos, uma parte significativa da poupança do setor privado,
refletida no crescimento da dívida interna.

Para completar, à medida
que o crescimento do país se desacelera como agora, o governo reage de forma
atabalhoada, levando empresários a postergar ou até cancelar investimentos.
Reduzir a tarifa de energia elétrica é um objetivo louvável, mas ao invés de
eliminar mais taxas e impostos, o governo preferiu reduzir a lucratividade das
empresas do setor. Como resultado, elas cortaram investimento. Os apagões serão
mais frequentes nos próximos anos, ou experimentaremos aumento nas tarifas de
energia elétrica, no futuro, para pagar o custo maior da geração nas
termelétricas. Nestas circunstâncias, a redução das tarifas poderá ser um tiro
no pé, pois não se sustentará nos próximos anos.

No mercado financeiro, diminuir
os juros é um ótimo objetivo, mas trazer a taxa básica ao menor nível da
história com a inflação acima da meta do próprio governo é arriscado. É o mesmo
que deixar muito próximas as pressões máximas e mínimas de um cardiopata.

Thais Herédia, colunista
da globo.com, citando um experiente analista de um grande banco nacional
(talvez por isso não o tenha identificado), falando sobre a questão da inflação
e taxas de juros muito próximas, escreveu: “As reações pioram quando as coisas
ainda estão no gerúndio – aumentando, complicando etc. Quando vem a convicção e
um consenso de que já está  muito ruim,
uma notícia negativa não abala porque está tudo implícito nos cenários e nos
preços dos ativos”.

Recorrendo, de novo, ao
Ricardo Amorim (aquele que também é do Programa da GNT Manhattan Connection,
dentre outra atividades como articulista e apresentador de programas de
economia), cite-se: “Tomara que nosso crescimento surpreenda positivamente em
2013. Pode acontecer. Se a crise europeia não se aprofundar, Obama conseguir
desarmar o abismo fiscal americano e a China continuar sua recuperação
econômica, provavelmente cresceremos os 3,50%, hoje projetados. Basta um destes
fatores externos não cooperar, e o crescimento decepcionará pelo terceiro ano
consecutivo”.

Além disso,
internamente, nossos gargalos de produtividade, de infraestrutura e logística e
de carga tributária limitam nossas possibilidades de crescimento. Sem a redução
consistente da carga tributária e dos gastos do governo federal, não adianta
clamar aos empresários que invistam. Sem qualidade e eficiência dos gastos
públicos, nossa competitividade e nosso crescimento continuarão baixos.

Anunciar investimentos
estratosféricos, contando com os empresários, é mera balela. Nunca se pode
esquecer: o motor que move o empresariado é o lucro. Existem para isso, vivem
para administrar  o próprio dinheiro e o
de terceiros, assegurando-lhes dividendos. Não tem ideologia que os faz mirar o
prejuízo. Ainda bem. Seria o caos se fossem administrar como muitos
governos. 

 

                                                                                       
                                                     Wolmar Loss

Engenheiro Agrônomo e Superintendente do CREA – ES

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