Empreendedorismo,
motivo do encontro que recentemente reuniu, próximo a Curitiba, cerca de 4.500
agricultores, a maioria formada por jovens e mulheres. Vestindo camisetas
verdes, o lotado auditório do Expotrade indicava a força dos produtores rurais.
Marca da esperança.
Encarregado
de proferir palestra sobre Os desafios da agricultura sustentável, quedei-me
perplexo com aquela multidão organizada, simbolizando a roça paranaense. Mesmo
com certa bagagem no embornal da profissão, jamais eu havia falado para tanta
gente. Estariam eles dispostos a me escutar, após terem ouvido tantos discursos
políticos, inflados e longos, na abertura da cerimônia? Resposta positiva.
Interessava
à plateia o tema que eu trataria. Passada a discussão sobre o novo Código
Florestal, os homens do campo desejam situar-se corretamente na modernidade.
Ninguém quer remar contra a preservação da natureza. Todos, porém, desejam
continuar a produzir, tirando seu provento familiar e ajudando com seu trabalho
a sustentar a humanidade. Conciliar a produção agropecuária com a defesa
ambiental representa um complexo, e estimulante, desafio. Verdadeira lição de
casa.
Finalizei
minha apresentação conclamando os agricultores a tomarem nas mãos,
afirmativamente, a rédea da sustentabilidade no campo. Juntamente com os
técnicos, da pesquisa e da extensão rural, ao lado dos ecologistas sérios, os
propositivos, e contando com a ajuda das lideranças e das autoridades
responsáveis, cabe aos próprios produtores rurais assumir essa agenda
agroambiental. Fundir o ruralismo com o ambientalismo. Os agricultores,
conscientes sobre os novos tempos, não precisam tomar lição moral de ninguém, muito
menos, exagerei, “de ambientalista sem noção, que jamais pisou no barro
nem, nunca, carpiu uma lavoura”. Aplaudiram-me!
Senhores
do seu destino. Há nove anos a Federação da Agricultura do Estado do Paraná
(Faep), presidida por Ágide Meneguette, comanda o exemplar Programa
Empreendedor Rural, executado em parceria com o Sebrae/PR. Iniciado em 2003,
nele já se formaram 18.219 pessoas – a maioria jovens, filhos de pequenos
produtores rurais. Durante meses, os alunos cumprem 15 módulos de aprendizagem,
abordando áreas de conhecimento técnico e desenvolvimento humano. Somam 136
horas de treinamento profissional, aprendendo sobre planejamento estratégico,
sucessão familiar, gestão financeira; discutindo conceitos de autoestima,
cidadania, liderança, competências pessoais e grupais. Consistente.
Os
cursos presenciais, somados a um projeto prático, qualificam os agricultores,
preparando-os para o mundo competitivo. Despertam neles a visão empresarial,
empreendedora. Aprendem a ser ousados, sem tirar os pés da realidade; descobrem
o valor do planejamento, como integrar-se ao mercado, montar cenários de
comercialização. Vislumbram seu sucesso, motivam-se pelo conhecimento.
Sensacional.
Pode
parecer bê-á-bá da economia moderna. Mas no contexto da agropecuária nacional,
no seio dos milhões de pequenos e médios produtores, denominados familiares, o
empreendedorismo assemelha-se a uma pequena revolução comportamental. Acontece
que impera no campo, desde suas origens, certa dominação. De cima sempre vieram
as ordens, primeiro do rei, depois dos latifundiários do açúcar, dos coronéis
do sertão, dos senhores de escravos, da oligarquia cafeeira. Isso gerou um
traço, na cultura do brasileiro, de excessiva dependência do poder, uma
subserviência política que lhe rouba autonomia na vida. Acostumado a cumprir
ordens, sente dificuldade de tomar decisões. Noutros casos, joga em outrem, no
governo quase sempre, a culpa por seus fracassos. Daí vem a fama de
“reclamão”.
Fatos
marcantes da agricultura brasileira intitula-se recente estudo coordenado por
Eliseu Alves, economista agrícola da Embrapa. Partindo do Censo Agropecuário do
IBGE (2006), a análise esclarece, de forma incontestável, a importância da
tecnologia na geração de renda dos estabelecimentos rurais. Mas, ao mesmo tempo,
desnuda um grave problema: a forte exclusão na modernização tecnológica. De um
total de 4,4 milhões de estabelecimentos rurais que declararam renda, apenas
500 mil (11,4%) podem ser configurados como de agricultores de sucesso,
remunerando seus custos e obtendo receita líquida compatível com qualidade de
vida. Respondem por 87% do valor da produção rural.
Um
segundo grupo, formado por 1,6 milhão de agricultores, ainda consegue pagar
seus custos de produção, mas aufere baixíssima renda líquida. A incorporação de
tecnologia poderia levantar a rentabilidade dessa categoria de pequenos
produtores. Abaixo desses, dramaticamente existem outros 2,3 milhões de
estabelecimentos rurais – a maioria situada no Semiárido nordestino – que
acumulam pobreza. Aqui se exigem políticas combinadas com transferência direta
de renda.
Conclusão:
a melhor receita contra a pobreza rural se chama difusão tecnológica. Por isso
fracassa a reforma agrária no Brasil. A terra não mais representa o passaporte
da felicidade, como na época antiga, quando enxada e vontade de trabalhar
garantiam sucesso. Hoje manda a tecnologia. Basta verificar no levantamento
feito pelo Incra (2011): quase 43% dos assentados da reforma agrária
abandonaram seus lotes, por desinteresse ou falta de conhecimento para
cultivá-los.
Misturando
conhecimento com motivação, a Federação da Agricultura do Paraná desenvolve um
verdadeiro elixir que ajuda o progresso no campo. Mostra, em eventos
inesquecíveis, a primordial tarefa de animar os agricultores familiares, os
esquecidos trabalhadores com terra do Brasil. Eles merecem o futuro.
Xico Graziano, ex-Secretário de Agricultura e atual Secretário do Meio Ambiente do estado de S. Paulo
Comente esta notícia. Clique aqui e mande sua opinião.
(É
necessário colocar nome completo, e-mail e o título da notícia comentada. Todos
os comentários enviados serão avaliados previamente. O portal Campo Vivo não
publicará comentários que não sejam referentes ao assunto da notícia, como de
teor ofensivo, obsceno, racista, propagandas, que violem direito de terceiros,
etc.)
Siga o Campo Vivo no Twitter @CampoVivo
O Campo Vivo também está no Facebook

