Celulose: oportunidades de mercado devem compensar retração internacional

por admin_ideale

A indústria de celulose e papel tem diversos desafios à frente, como a
substituição dos papéis gráficos pelos meios digitais e consequente queda de
vendas, o acirramento da competição no setor e a tendência da China investir em
produção de celulose, além da crise internacional. Contudo, há também
oportunidades que poderão dar sustentação ao mercado, como a substituição de
papel reciclado na Ásia por fibra virgem e as condições favoráveis nos
segmentos de papel embalagem e tissue nos mercados emergentes.

Estas oportunidades e desafios do setor foram tema de estudo apresentado em
encontro com lideranças do setor, em São Paulo, por Jarkko Sairanen, presidente
da Poyry Management Consulting – unidade de negócios do Grupo Poyry, líder em
serviços de engenharia e consultoria para o setor de celulose e papel no Brasil
e nos países onde atua.

O segmento de papéis gráficos é o mais sensível
hoje devido à acelerada queda nas vendas de jornais e revistas, em substituição
ao formato digital. Do patamar de 140 milhões de toneladas vendidas por esse
segmento há 10 anos – dos quais 100 milhões nos mercados maduros e os demais 40
milhões de toneladas, nos emergentes -, a previsão é que as vendas caiam em 20
milhões de toneladas até 2025, com uma inversão também na ordem de magnitude do
consumo, na qual os países maduros deverão responder por apenas 40 milhões de
toneladas, e os emergentes, por 80 milhões de toneladas.

“A revolução causada pela mídia eletrônica está
apenas no início, e a indústria precisa entender que o impacto disso é muito
importante para os diferentes tipos de papéis”, destacou Jarkko Sairanen, ao
observar que a crise financeira foi responsável apenas por uma parte da
retração no mercado de papel e celulose – o outro fator foi a substituição dos
meios impressos pelos digitais, o que reduziu o investimento de propaganda
nesses veículos, no mercado norte-americano, de US$ 60 bilhões para US$ 20
bilhões. “Dois terços da receita foram perdidos, e a indústria de comunicação
se pergunta como vai sobreviver”, afirmou o presidente da Poyry Management
Consulting.

Nos mercados emergentes, boa parte do crescimento
futuro virá dos papéis para embalagem, os quais apresentam enormes
oportunidades de inovação. “As empresas estão inovando no desenvolvimento de
embalagens para produtos farmacêuticos e em substituição a outros tipos de
embalagem como a de plástico ou vidro – por exemplo, embalagens de papel –, o
que vai representar um crescimento fundamental”, conta Jarkko Sairanen.

Já no segmento de papel tissue, o menor de todos em
gramatura média e volume, também haverá uma maior segmentação, com a utilização
para outros fins, além da ampliação das vendas para uso sanitário,
principalmente em função da mudança de hábitos de consumo nos mercados
emergentes, com a ascensão das classes de menor poder aquisitivo. O uso de
fraldas, por exemplo, vem crescendo nos mercados emergentes. Para dar uma ideia
do potencial de crescimento do mercado de fraldas nesses países, basta notar
que 92% das crianças em idade de uso de fraldas vivem nos países emergentes.
Com mais famílias adquirindo maior poder aquisitivo e novos hábitos de higiene
e consumo, o mercado destes produtos deverá apresentar uma tendência forte de
crescimento.

A Ásia – destacadamente a China -, responde hoje por 45% do mercado total de
papel, e deverá incrementar sua demanda fortemente, com previsão de que seja
responsável por 90% do incremento de consumo de papel como um todo até 2025. No
segmento de embalagens, o crescimento da demanda será ainda mais forte.

A questão, segundo o executivo da Poyry, é quais os
efeitos disso na área de fibras. E aí desponta outra oportunidade interessante
para a indústria brasileira atuar: a substituição dos papéis reciclados na Ásia
por fibra virgem para a fabricação de papel. “O uso de papéis reciclados na
Ásia ainda terá um incremento, mas depois vai decrescer, e não será suficiente
para atender a maior demanda, devendo ser substituído pela fibra virgem, o que
é uma boa noticia para a indústria de celulose”, observou ele.

Isto abrirá oportunidades, mas a indústria terá de
ampliar seu nível de excelência operacional e competitividade para fazer frente
à própria concorrência no mercado asiático e chinês, que deve se ampliar, seja
com investimentos na produção de celulose, seja da parte de multinacionais da
área de papel, que estão modernizando suas operações no mercado chinês, como
Kimberly–Clark, UPM e Tetra-Pack, quanto de companhias chinesas como Huatai
Group, APP, Huafang Paper, NNE Dragons Paper e China Paper, entre outras.

“Há 20 anos, havia uma vantagem inerente na plataforma brasileira, mas isso
mudou e, face a esse cenário, torna-se fundamental ampliar a excelência
operacional e usar a vantagem dos ativos, não só plantando mais”, ressaltou
Jarkko Sairanen, ao acrescentar que o aumento da produtividade e a maximização
do lucro devem caminhar simultaneamente à criação do máximo de valor agregado a
partir da fibra, por meio de produtos como os biocombustíveis, bioquímicos e
biomateriais.

 

Agrolink

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