Boi no divã

por admin_ideale

Nos últimos
dez anos, as exportações brasileiras de carne bovina registraram um crescimento
anual de 16%, segundo números do Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento (Mapa). De US$ 1 bilhão em 2001, os embarques – que chegam a mais
de 100 países – saltaram para US$ 5,3 bi no ano passado. De acordo com o
Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês), o
Brasil é o maior produtor de carne bovina.

Além disso, pesquisa das consultorias Scot e Markestrat, com base em dados de
2010, aponta que toda a pecuária movimenta US$ 167,5 bi. Segundo o mesmo
estudo, do total, em valores, de US$ 42 bi produzidos em carne, US$ 37,2 bi
foram comercializados no mercado doméstico e apenas US$ 4,8 bi foram
exportados. Ou seja, a pecuária garante o abastecimento interno de carne bovina
– aproximadamente 80% do que é fabricado fica no Brasil -, e gera excedentes
exportáveis, devido à incorporação gradual de tecnologia e de ganhos de
produtividade por parte dos produtores.

Contudo, a despeito destes bons resultados e contribuições para a economia do
País, a atividade passa por uma crise existencial, que é alimentada por
divergências entre elos da cadeia produtiva, concentração na indústria e
varejo, novos hábitos de consumo, e o chamado “custo Brasil”, disseram
especialistas no setor, na sexta-feira (09), ao participarem de evento na
capital paulista.

Aprender a
vender

“A carne brasileira nunca foi vendida, sempre foi comprada. Ainda não somos
capazes de vender o que temos de bom. Falta capacidade para trabalhar a venda”,
afirmou Sérgio De Zen, professor da Esalq/ USP e pesquisador do Centro de
Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). No mercado interno, disse o
professor, onde a elasticidade de consumo relacionada ao efeito de aumento da
renda está no limite, a tendência é de que a carne seja cada vez mais vendida
por atributos de qualidade.

Ainda no tocante às exportações, Luciano Vaccari, superintendente da Associação
dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), pontuou que é preciso rever o
posicionamento da carne brasileira no mercado internacional. “O que queremos
exportar? Queremos ser a China [numa referência a vender commodity] ou o
Uruguai? [que investe e comercializa carne com maior valor adicionado]”,
indagou.

Alex Lopes, analista da Scot Consultoria, chamou a atenção também para o fato
de que as exportações estarem concentradas em número reduzido de mercados.
“Rússia, Hong Kong, Egito, Irã, e outros países do Oriente Médio respondem por
aproximadamente metade das nossas exportações. É necessário diversificar os
destinos.” Para Fabiano Tito Rosa, gerente de pesquisa de mercado do
frigorífico Minerva, um caminho é o Brasil investir em acordos bilaterais, como
o Uruguai fez com os Estados Unidos (EUA).

O país
vizinho vende carne “in natura” para os norte-americanos. “Nosso ‘status’
sanitário nunca será aceito pelos mercados importadores que pagam mais”,
salientou. Pela sua extensão continental, o Brasil tem diversas realidades em
relação ao controle sanitário dos rebanhos.

O caso mais clássico é a febre aftosa. A maioria dos Estados já controlou a
doença com vacinação – Santa Catarina é o único livre de aftosa sem vacinação
-, todavia como outros não o fizeram, o País fica penalizado no comércio
internacional, já que o critério de regionalização de controle da doença não é
aceito por muitos países importadores, principalmente os que pagam mais pela
tonelada de carne. Segundo os analistas, evidentemente a questão sanitária é
muitas vezes usada como protecionismo disfarçado, mas é algo tecnicamente
complicado de se provar.

Boi vivo

Além da
carne, o Brasil tem exportado também o boi vivo. Os embarques de “gado em pé”
subiram de US$ 212,5 mil em 2001 para US$ 444,8 milhões em 2011. “É um negócio
fantástico”, frisou Tito Rosa do Minerva. Na avaliação de Lopes, da Scot
Consultoria, a exportação de boi vivo é uma tendência e é complementar aos
embarques de carne. “Não concorrem”, acrescentando que do ponto de vista de
também vender tecnologia, não só produtos, o Brasil tem exportado genética –
para a África, por exemplo – por meio de animais reprodutores e comércio de
sêmen bovino.


Ronaldo Luiz / Sou Agro


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