Embora se
trate de um fenômeno temporário e limitado a três culturas, o atual aumento dos
preços internacionais do milho, da soja e do trigo requer que os países da
América Latina e o Caribe (ALC) sigam sua evolução e analisem os canais de
transmissão de preços, domésticos e fora de suas fronteiras, para contrariar
efeitos negativos e para que agricultores destas regiões aproveitem eventuais
oportunidades. Assim indica o mais recente informe entregue aos Ministros de
Agricultura do hemisfério pelo Diretor Geral do IICA, Victor M. Villalobos.
O aumento dos preços se deve, principalmente, a uma diminuição na produção dos
cultivos provocada pela seca nos Estados Unidos e, em menor medida, pela
diminuição das chuvas na Rússia, Ucrânia, Cazaquistão e Turquia, pelos atrasos
da monção na Índia e elevadas precipitações na China e nas Coreias. Além disso,
várias regiões da América Central têm apresentado condições de seca, o que tem
afetado a produção agrícola. O documento explica que os impactos da maior
variabilidade climática sobre a agricultura vão continuar nos próximos anos, de
modo que se torna cada vez mais necessário instrumentar políticas para se
adaptar às mudanças climáticas e mitigar seus efeitos no agro.
“Recomenda-se prudência para não reagir demais às atuais condições de preço,
evitando políticas distorcidas do comércio, que em lugar de ajudar,
pressionariam por maiores aumentos e volatilidade nos preços”, diz a nota
enviada aos ministros. De acordo com o informe técnico, é esperado que os
níveis atuais do preço incentivem aos produtores da ALC e outras regiões do
mundo a aumentar as superfícies cultivadas de milho, soja e trigo, então os
maiores níveis de produção das seguintes colheitas diminuiriam os preços nos
mercados internacionais. De fato, na ALC a colheita de cereais pode elevar 4%.
A situação atual lembra a crise do período 2007-2008, inclusive os preços do
milho e da soja superam os máximos alcançados nessa época, mas faltam os
elementos estruturais e conjunturais que comprometeram a segurança alimentar
naquele período. Por exemplo, os preços internacionais de commodities como o
arroz se mantiveram estáveis, igual que os do petróleo e dos fertilizantes,
enquanto produtos como o cacau, açúcar e café estão em baixa.
Outra diferença importante entre ambas as situações é que as reservas mundiais
de milho e soja são mais altas hoje que no período anterior, além disso as
economias mais desenvolvidas crescem pouco – ou se encontram em recessão – e as
emergentes tem perdido força, o que permite prever uma demanda mundial por bens
básicos mais pausada e a uma menor pressão sobre os mercados.
A nota técnica informa também que o aumento internacional do milho, da soja e
do trigo teriam dois efeitos principais na ALC: um direto, sobre o consumo, e
outro indireto, que se manifestaria em cadeias alimentícias.
“Do ponto de vista do consumo, há que se considerar qual é a importância dos
produtos que estão aumentando mais de preço na dieta, especialmente nos grupos
menos favorecidos”, diz o documento. Nesta ocasião, é o preço do milho amarelo
o que mais sobe, mas com exceção da Mesoamérica, esta elevação tem menos
impacto sobre a fome e a pobreza, em comparação com o arroz e o trigo.
O impacto é maior no caso do último produto. “A maioria dos países da ALC
depende fortemente das importações do trigo e, por isso, os preços
internacionais se transmitem rapidamente aos mercados domésticos, afetando os
preços da farinha e massas. Isto fará com que, possivelmente, aumente o consumo
de substitutos como arroz e batata, aumentando seus preços, embora de maneira
leve devido ao fato da oferta local ser considerada boa”, afirma a nota técnica
do Instituto.
A evolução dos preços dos cereais e oleaginosas dependerá do comportamento do
clima em setembro nos Estados Unidos da América e no sul do hemisfério. A
vulnerabilidade dos países da ALC perante os aumentos se dará em função do peso
que cada produto tenha na dieta nacional, assim como da origem destes bens,
caso sejam importados.
“Os países cujas importações proveem dos Estados Unidos da América estarão em
uma situação de maior vulnerabilidade que aqueles que importam da Argentina,
Brasil ou outros países que não tem experimentado variações bruscas em sua
produção. Por outro lado, os países exportadores de milho, soja e trigo se
beneficiariam dos aumentos nos preços”, explica o documento.
Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA)
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