Após viver apogeu, setor cacaueiro capixaba enfrenta crise com otimismo
O ano era 1921. Linhares, ainda um distrito, pertencente ao município de Colatina, começava a se desenvolver. O cultivo do cacau, introduzido na região por baianos, ganhava destaque na economia local e seria fundamental para a emancipação do distrito anos mais tarde. Hoje, Linhares é uma das cidades mais desenvolvidas do Espírito Santo, com uma agricultura diversificada e várias indústrias. Porém, a força da cultura do cacau já não é mais a mesma.
Nos últimos quinze anos, a produção e produtividade do cacau no Espírito Santo vêm caindo a uma taxa de cerca de 3% e 4%, respectivamente. “Quando eu comecei, a pessoa que tinha 10 hectares de cacau era rica. Tinha carro, dinheiro, colocava o filho para estudar na capital. Hoje, eu tenho 300 hectares de cacau e não está sobrando nada. Só está dando para pagar as despesas porque os custos de produção estão mais altos do que o preço de venda. A cultura está se tornando quase inviável”, destaca o produtor Waldemar Borges, que cultiva a fruta há 40 anos, lembrando que muita gente já abandonou a lavoura.

Waldemar recorda bons momentos do cacau
A produção cacaueira no município de Linhares, responsável por 95% da produção capixaba, caiu de 14.000 para 4.000 toneladas no período de 1982 a 2004. O gerente regional da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), Paulo Siqueira, diz que a variação da produção ocorreu em decorrência de dois fatores principais. “Questões climáticas, com chuvas mal distribuídas ou falta delas, e preços”, destaca. Em 2001, com a entrada da doença da vassoura de bruxa nas lavouras linharenses, a situação ficou ainda pior. Nos últimos anos, a luta do setor cacaueiro capixaba tem sido grande para enfrentar a doença que devastou os cacauais da Bahia. O primeiro registro da vassoura de bruxa em lavouras do Estado ocorreu em 2001, na Fazenda Maria Bonita, em Linhares. “Depois que a doença entrou na região, até 2008 ainda não havia influência na produção. Agora sim, pois os frutos começam a apodrecer e a parte econômica é afetada”, explica Siqueira.
Para se livrar desse prejuízo, o cacauicultor precisa combater a doença. A recomendação das instituições de pesquisa é renovar a lavoura, substituindo plantas velhas e doentes por variedades mais resistentes. “A renovação é a saída. Sem clonagem, tirando essas plantas velhas e colocando plantas novas que tenham resistência e maior produtividade, realmente fica difícil sair da crise. É preciso tirar os cacauais de 80 a 100 anos e adensar a área. Levar das atuais 500 plantas por hectare para 800 plantas por hectare”, diz Siqueira.
Para tentar manter a renda sem abandonar a cultura do cacau, além da renovação, produtores começam a investir nos sistemas agroflorestais. O cultivo da fruta consorciado com outras culturas, como a seringueira, pode ser uma boa alternativa. Waldemar Borges apostou nesse método há três anos e plantou seringueira junto com o cacau. “Eu estou fazendo e aconselho. Assim, nós podemos ter a produção de borracha que vai resolver o nosso problema nesse período. Vai pelo menos dar para manter a área desfrutando alguma coisa. Não tem outro caminho”, afirma.

Guilherme e Siqueira: juntos pela recuperação da cultura cacaueira
Quem também apostou no cultivo consorciado foi o presidente da Associação dos Cacauicultores de Linhares (Acal), Guilherme Mosca. Para ele, a união de outras culturas pode ajudar os produtores de cacau a enfrentar a crise. “Quando você implanta mais de uma cultura, você tem duas fontes de renda no mesmo local e, com isso, sai da dependência de um produto só. Isso ajuda em momentos de crise como esse”, diz Mosca.
Quem acompanha diariamente os produtores de cacau de base familiar da região é a técnica do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), Renata Setubal. Mesmo com as dificuldades observadas, ela acredita na viabilidade do cultivo de cacau. “Através da clonagem, a gente acredita e sabe que dá certo. É totalmente viável economicamente e é sustentável. Atualmente, a maior dificuldade dos agricultores seria entrar com um sistema de irrigação na lavoura porque ainda é uma técnica cara. O setor necessita de alguns incentivos”, diz Setubal.

Agricultores familiares aprendem novas técnicas para a lavoura
Um dos pontos principais para dar novo fôlego na atividade é o crédito para o produtor de cacau. O Banco do Nordeste do Brasil (BNB) é um dos que atuam com linhas de financiamento que atendem a atividade. “Algumas linhas de crédito podem beneficiar o setor da cacauicultura, como o FNE Rural, o FNE Verde e o FNE Pró Recuperação. O FNE Rural atende a uma proposta de crédito normal, sem nenhuma inovação ambiental. Já o FNE Verde e o Pró Recuperação, que são linhas de créditos parecidas, com algumas diferenciações, trabalham mais com o sistema agroflorestal, recuperação de áreas degradadas. Nessas linhas de crédito nós temos juros que variam de 5,00% a 7,25% ao ano e prazos variando de 10 até 20 anos. Isso vai depender da proposta do produtor e do enquadramento que terá nas linhas de crédito oferecidas pelo banco”, explica a agente de desenvolvimento da agência do BNB de Linhares, Sonia Lucia de Oliveira Santos.
Mas os benefícios do crédito nem sempre animam os produtores. De acordo com Sonia, a possibilidade de investimento na cultura não está sendo bem usada pelo produtor. “O produtor ainda tem muito receio de entrar no financiamento para o cacau. Temos exemplos de produtor que já procurou a gente, conversou, repensou e desistiu. Devido ao histórico da cultura, existe ainda aquele medo de investir no cacau e depois dar errado. Mas com um bom projeto e planejamento, o crédito só vai ajudar o produtor a melhorar sua lavoura cacaueira”, destaca.
A importância social, econômica e ambiental do cacau, além do apelo histórico da cultura para o município de Linhares, renova as esperanças do setor produtivo, que espera que o trabalho e persistência possam trazer de volta a boa fase da cultura. “Quem investir e colocar tecnologia vai vencer. Quem esperar milagre, realmente fica difícil”, alerta Guilherme Mosca. “Para os produtores que têm amor ao meio ambiente e ao social, e querem ganhar dinheiro com o equilíbrio do sistema, existem formas tranqüilas para se fazer. Acredito em um futuro esplendoroso”, finaliza Paulo Siqueira.
Franco Fiorot

