ARTIGO – As defasagens distribuídas dos preços agrícolas

por admin_ideale

 


Retomam-se as discussões sobre a tendência de elevação dos preços dos alimentos, evidenciadas em artigos técnicos ou em notícias da imprensa. Essencialmente, resgata-se a mesma lógica e o mesmo discurso iniciado em 2007 e interrompido com a crise econômica de 2008. Na verdade, apenas demoramos dois anos para volta ao ponto zero: Alimentos baratos nunca mais. Os ingredientes estruturais são os mesmos, explicados por elevação de custos puxados por insumos e serviços caros, barreiras protecionistas, câmbio sobrevalorizado, carga tributária escorchante, infraestrutura e logística deficitárias.


 


Os ingredientes conjunturais se identificam por dois grupos: (I) aqueles que se referem às safras e seus quantitativos, influenciados por anomalias climáticas ou ocorrências de eventos extraordinários, determinantes dos níveis de produção e flutuações sazonais; (II) aqueles que têm interferência direta das circunstâncias econômica determinadas por omissões ou decisões políticas equivocadas, a exemplo de preços mínimos não atraentes, ausência de estoques reguladores, custos elevados dos financiamentos etc.


 


Eventos do primeiro grupo levam normalmente ao aumento de preços determinado por efeito substituição. É o que vem ocorrendo com o preço do frango, puxado pelo aumento do preço do boi. Trigo e arroz funcionam com certo grau de substituição, e assim por diante. No caso de ocorrências do segundo grupo, não raro leva à redução geral (para a maioria dos produtos) ou localizada (para os produtos mais afetados) de safra.


 


Os ingredientes estruturais levam gradativamente à perda da dinâmica da produção agropecuária, com desorganização lenta e persistente dos processos produtivos, cujos efeitos são silenciosos, mas de difícil remoção. Coroem como uma doença degenerativa, destruindo silenciosamente a musculatura do agronegócio. Muitas vezes dá a entender que está tudo bem, mas é sinal falso. As debilidades estruturais potencializam os efeitos conjunturais, seja dos eventos naturais, sejam das políticas equivocadas dos governos.


 


A atual reação dos preços dos alimentos em nível mundial advém também de dois fenômenos conhecidos: O primeiro está associado à velha especulação, uma vez que alguns alimentos passaram a ser um ativo com possibilidade de retornos atraentes em vista das baixas taxas de juros nominais, no mercado mundial. O segundo está associado ao efeito elasticidade-renda, pela característica da demanda de alimentos da população dos países asiáticos, em especial China e Índia.


 


Ocorre que quando o produtor brasileiro colheu, vendeu barato, pois os preços, na sazonalidade estavam em baixa e só passaram a reagir significativamente em setembro. Agora, poucos são os produtores que tem estoques para vender. Do lado dos consumidores, pagaram preços melhores até julho, mas nem tanto, e estarão compelidos a passar um fim de ano com alimentos mais caros. E tudo indica que em 2011, os preços continuarão mais salgados. A gangorra dos preços é sempre assim: quando baixa, o produtor perde, mas o consumidor não é beneficiado na mesma proporção. Quando sobe, o produtor não recebe uma fatia maior, equivalente ao que subiu, e o consumidor paga uma conta muito maior. Quem deu as maiores bocadas no pudim? Seguramente os especuladores em títulos, derivativos e em bolsas de mercadorias. Não os verdadeiros comerciantes. Eles, os especuladores, são tão mais fortes quanto mais fracos são os governos, em suas políticas de apoio à comercialização e formação de estoques estratégicos e reguladores.  


 


 


 


                                                   Wolmar Loss


                                                            Engº Agrº. MS em Economia Rural


                                                          e Desenvolvimento Econômico

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