A modernidade e busca pela estabilidade financeira e melhores condições de vida tem feito com que vários jovens larguem a vida no campo para estudar e trabalhar na cidade. Com isso, muitos produtores rurais não estão sabendo o que fazer para dar continuidade na propriedade. Alguns até apóiam a escolha dos filhos, considerando que a falta de investimento no campo e no produtor é uma das principais causas dessa situação muito freqüente nos últimos anos.
Filho de lavrador, o produtor João Contadini tem seis filhos, três homens e três mulheres. Somente dois mexem com roça e, mesmo assim, têm outro emprego. “Meus filhos vivem melhor na cidade. Hoje a situação na fazenda é difícil. Tem muito imposto para pagar e pouco retorno na venda do produto. Sempre os motivei a estudar. Hoje todo mundo quer ter roça, mas cuidar é que é difícil. Às vezes, acho até ruim quando eles pensam em voltar para o campo. Viver só da agricultura não tem como. Falta estrutura na zona rural”, reclama Contadini, produtor de café e também pecuarista, em Linhares.
O filho de João herdou o gosto pelo campo, mas não conseguiu ficar só por lá. Osmar Contadini não consegue largar as atividades rurais, mas diz que viver somente dela não daria para pagar os estudos dos filhos. “Só daria para sustentar eu e minha esposa. Por isso vim para a cidade estudar e trabalhar. Montei uma farmácia e, com o dinheiro que ganho hoje, comprei uma propriedade em Barro Novo. Desse jeito tenho como continuar no campo”, diz.
Osmar, que trabalha com gado de corte na sua fazenda, revela que o interesse em ter uma propriedade e até pensar em continuar no campo é pelo fato de ter sido criado na roça e ter acompanhado seu pai na lavoura. Apesar de ver avanços no setor agropecuário, a dúvida sobre futuro deixa o pecuarista com um pé atrás. “Hoje a agricultura tem mais recursos, como máquinas e outras tecnologias, que antes não existiam e que facilitam o trabalho. Mas, viver só do campo, sustentando uma família, é difícil. Às vezes, acho que muita coisa boa vai acontecer e melhorar a vida no campo, outras vezes que não”.


O avô, João Contadini, continua no campo; Nino e Osmar alternam entre farmácia e fazenda
A terceira geração desta família saiu dos bancos da faculdade há pouco tempo. Osmar Nino Contadini, também gosta do campo, mas preferiu cursar Farmácia e trabalhar no comércio do pai. Quando criança, o neto de seu João, acompanhava o avô e o pai, Osmar, na roça, mas percebeu desde cedo as dificuldades. “Eu gosto da agricultura, mas ficar só na propriedade não daria para mim. O custo na fazenda é alto e há pouco retorno. Prefiro continuar trabalhando na cidade e ajudar na fazenda. Até tenho vontade de largar tudo e ir para a fazenda, mas as condições no campo não proporcionam isso. Trabalhar na cidade dá um retorno maior”, afirma.
Já Marcos Vinícios Dadalto de Oliveira não pretende voltar tão cedo para o campo. Ele já foi meeiro e ajudou muito o pai, o produtor Zivaldo Martins de Oliveira, na propriedade localizada no distrito de Joerana, em Sooretama. No local, seu Zivaldo cultiva café e outras culturas, em uma área de 14 hectares. Porém, quando terminou o ensino médio, Marcos resolveu se mudar para Linhares em busca de trabalho e até hoje continua no município. “Eu percebi que se continuasse na fazenda não ia render muito para o meu futuro. Até ajudaria a família a alegraria meu pai, mas para mim não ia dar muito certo. O campo hoje para o jovem é complicado. Há muito gasto para manter uma propriedade com mão-de-obra, fertilizantes, carro”, diz.
Hoje, com 23 anos, Marcos trabalha em uma loja de materiais de construção. Para ele, o retorno financeiro pequeno do produtor desestimula. “Quem tem menos retorno são os pequenos produtores. Ficar um mês na cidade está compensando mais do que ficar no campo. Não que eu não goste do campo, pelo contrário, mas viver só dele não dá. Às vezes, o que plantamos só dá para o consumo da família”, destaca o jovem, lembrando que quando decidiu sair de casa o pai deu apoio. “Acho que ele viu o quanto tinha trabalhado e sofrido para conseguir algo e decidiu me apoiar”.
Mas diante da atual realidade, há àqueles jovens que mesmo com as dificuldades ainda preferem permanecer no campo. O gosto pela agricultura fala mais alto do que os entraves que eles sabem que vão enfrentar na fazenda. Apesar da realidade dos médios e grandes produtores ser um pouco diferente, alguns novos produtores até saem das casas dos pais para estudar, mas quando terminam os estudos voltam para a zona rural e até praticam a profissão na propriedade, ajudando a desenvolver a produção.
É caso dos filhos de Genivaldo Bassini. Três deles resolveram assumir as fazendas do pai e trabalhar no campo. O biólogo Hugo Baldi Bassini, de 27 anos; o zootecnista Pablo Baldi Bassini, de 24 anos, e o caçula, de 21 anos, Diego Baldi Bassini, que se forma este ano

Genivaldo e os três filhos: ainda no campo
A sucessão no campo vai virar tema de livro do jornalista e publicitário, especializado em agropecuária, Richard Jakubaszko. Para o autor da futura obra “Meu filho, um dia tudo isso será teu”, cada vez mais o problema da sucessão se agrava. “Grandes produtores deixam de herança uma propriedade para três ou quatro filhos, e esta é dividida em três ou quatro médias propriedades. Na sucessão seguinte, viram 10 ou 12 pequenas propriedades. Quando a propriedade pequena é deixada de herança dá para fazer apenas um pequeno loteamento. Nesse meio tempo, sabemos que a maioria dos herdeiros não tem vocação e nem aptidão, e arrendam ou vendem as propriedades médias e pequenas para grandes produtores, e recomeça a concentração de terras. Ou seja, o governo tenta fazer a reforma agrária, mas na prática as propriedades acabam se concentrando novamente, em mãos de outros”, explica Jakubaszko.
Mas, pelo menos por enquanto, a criação de gado e os cultivos de pinhão manso e eucalipto são motivos de união da família Bassini. O pai Genivaldo fica feliz com as iniciativas dos filhos. O produtor diz que nunca os obrigou a continuarem no campo e deu apoio para os estudos, mas de uma forma ou outra procurava trazê-los para a lida no campo. “A única coisa que eu fiz foi incentivá-los a gostar do campo. Quando eram crianças trazia os três comigo. Acho que isso fez com que eles pegassem gosto pela fazenda. Isso é bom. Essas propriedades, amanhã ou depois, ficarão para eles. Se não eles não assumirem, como fica tudo?”, questiona o produtor. “Fico muito feliz pelos meus filhos continuarem o que eu comecei. Apesar das dificuldades, eles não desistem. Fico orgulhoso porque hoje não é fácil a vida no campo”, diz Genivaldo, com emoção.
Quem também sente orgulho por ver o filho continuar o que começou é o produtor Djalma Soprani. No Sítio Boa Esperança, de 20 hectares, na localidade do Farias, em Linhares, encontramos uma produção diversificada. Café, feijão, milho, coco e eucalipto, além da criação de algumas galinhas. A esperança do seu Djalma valeu a pena e ele pode ter um de seus filhos ajudando no trabalho rural. “Tenho outro filho que também me ajudou muito na lavoura, mas por causa da facilidade do emprego e a estabilidade financeira, decidiu trabalhar na cidade”, diz. O irmão mais novo, Joelson Soprani, de 31 anos, permaneceu na roça, após completar os estudos. “Sempre gostei do campo. Depois que terminei o ensino médio, preferi continuar ajudando o meu o pai. Alguém tem que ficar no campo, senão quem vai produzir o alimento. Só que é preciso incentivo no meio rural”, diz Joelson.

Família Soprani: Joelson permaneceu na roça com os pais
Seu Djalma concorda com o filho. Segundo ele, atualmente falta apoio e estrutura para manter os jovens no campo e até mesmo os pais. “Para se sustentar e ter retorno financeiro, o produtor não pode plantar somente uma cultura. Na lavoura é preciso diversificar a plantação e isso demanda mão-de-obra. Ainda bem que um dos meus filhos me ajuda. Se estivesse só eu e minha mulher não daria para cuidar da lavoura. Acho que já teria vendido parte disso”, diz o produtor.
Jakubaszko acredita que para um filho querer assumir a propriedade do pai não basta gostar. “Sem dúvida, a vocação é fundamental e a aptidão também”, diz.
Revista Campo Vivo

