Cabruca ecológica

por admin_ideale

 


Um sistema de cultivo do cacau iniciado no Espírito Santo na década de 1910 ainda é uma importante ferramenta para a preservação e recuperação do que restou da Mata Atlântica em terras capixabas. Denominado de Cabruca, o método de plantio do cacau sob copa de árvores nativas da mata atlântica é um grande aliado do meio ambiente no século XXI. Um dos responsáveis pela adoção deste sistema no Estado foi o produtor baiano, Filogônio Peixoto. Em 1917, veio para o município de Linhares e incentivou a cacauicultura pela região. Talvez, nem o governador capixaba da época, Bernardino Monteiro, que ajudou a propagar as virtudes das terras do Baixo Rio Doce para o cultivo do cacaueiro, imaginava que esta cultura agrícola seria uma das principais aliadas na conservação da mata.


 


Hoje, Filogônio Peixoto dá nome à Estação Experimental da Ceplac, localizada em Linhares, município responsável por 95% da produção estadual. A Estação fica ao lado do Rio Doce, região que abriga grande parte das lavouras cacaueiras do município e preserva uma considerável cobertura florestal.


 


Para manter esta integração entre sistema de produção com conservação da biodiversidade, um projeto, executado por órgãos do Governo Federal e Estadual, está sendo realizado em parceria com os produtores. É o Corredores Ecológicos, que são áreas planejadas com o objetivo de conectar remanescentes florestais, proporcionar o deslocamento de animais entre os fragmentos e a dispersão de sementes, aumentando a cobertura vegetal e possibilitando a conservação dos recursos naturais e da biodiversidade. O projeto conta com o apoio do Governo da Alemanha que destina recursos para auxiliar a implantação do projeto. “Estamos realizando ações na área de abrangência dos Corredores Ecológicos, incentivando a implantação de sistemas agroflorestais, a recuperação de áreas de preservação permanentes (APP) e de reservas legais, criação de novas unidades de conservação, e capacitando os produtores sobre como melhorar a produção agrícola com adequação ambiental”, explica Hans Christian Schmidt, consultor permanente de uma empresa (GFA) contratada pelo KFW, o Banco de Desenvolvimento Alemão, que acompanha o projeto no Espírito Santo.


No mês de maio, Christian esteve em Linhares para uma visita de acompanhamento do projeto. Acompanhado do Coordenador de Projetos do GFA na Alemanha, Uwe Gebauer; do consultor do GFA que acompanha o projeto na Bahia, Cornelius von Fürstenberg; da coordenadora da Unidade Estadual, sediada no Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (IEMA), Gerusa Bueno Rocha; e do coordenador estadual da Bahia, Marcelo Senhorinho; ele visitou as ilhas de cacau localizadas no Rio Doce. “A cobertura florestal da produção de cacau, atualmente, é grande nesta região, mas temos a preocupação com o futuro”, diz Christian.


 



Ilhas de cacau são visitadas em Linhares


 


O interesse dos gestores do Projeto Corredores Ecológicos com a produção dos agricultores familiares de cacau no Baixo Rio Doce teve início após um diagnóstico realizado por técnicos do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), em parceria com o projeto Ecocidadania. “A partir deste diagnóstico realizado nas comunidades rurais e valorizando a cacauicultura familiar como uma atividade historicamente importante para a conservação da nossa mata atlântica, eles passaram a apoiar essas atividades através do projeto”, conta a técnica agropecuária e extensionista do Incaper, Renata Setubal.


A visita apresentou o sistema de produção de cacau em cabruca manejado por agricultores familiares em algumas ilhas do Rio Doce, no distrito de Regência, onde é possível observar a integração de produção com conservação do meio ambiente, mantendo as famílias no campo e gerando renda. “Efetivamente, a cabruca conecta pessoas e florestas. Os produtores de base familiar desta região têm amor e orgulho de cultiva cacau neste sistema, mas eles reclamam que a sociedade não reconhece o que fazem. Falta incentivo para os produtores que, há vários anos, produz e, ao mesmo tempo, preservam”, diz Setubal.


Aos poucos, o projeto Corredores Ecológicos tenta resgatar o ânimo destes produtores promovendo ações que possibilitem dias melhores. “Estamos buscando agregar valor ao produto. Temos o cacau fino que tem boas perspectivas de mercado, produzido a partir de padrões ambientais. O cacau orgânico e o cultivo de espécies tradicionais também têm grande potencial de agregação de valor. Já temos experiência na Bahia de exportação deste produto sustentável”, destaca Christian Schmidt.


Com uma área plantada de cerca de 20 mil hectares de cacau, cerca de 95% dessa área estadual ainda preservam espécies nativas da Mata Atlântica. Os pioneiros do cultivo no sistema cabruca no Espírito Santo devem estar contentes por estarem no início deste corredor ecológico.


 


Franco Fiorot

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