A imprensa em geral e os veículos especializados em jornalismo econômico em particular estão acertadamente dando ênfase aos desequilíbrios interno e externo das contas públicas.
Internamente, maquiando balanços para ampliar o resultado primário das contas do Governo Central, ao transformar o passivo da participação na capitalização da Petrobrás em ativo para as contas do Governo. Esta é uma maquiagem grosseira, pois o petróleo debaixo da terra virou dinheiro para o governo. Esse ativo de fato não existe sob alógica do fluxo monetário e os juros continuarão elevados para garantir o financiamento do déficit público, com a rolagem da dívida interna que já ultrapassou os 1,6 trilhões de reais.
Externamente, o déficit deve alcançar 50 bilhões de dólares em 2010, e caminha aceleradamente para mais de 60 em 2011, e crescendo a taxas assustadoras nos anos seguintes, se nada for feito. A sobrevalorização cambial responde em grande medida por essa deterioração das contas externas.
Seja quem for o eleito, o próximo Presidente da República precisa debruçar-se imediatamente sobre os problemas econômicos, especialmente do câmbio, antes mesmo de tomar posse.
Há graves sinais de desindustrialização em segmentos mais sensíveis como os manufaturados, cuja competitividade está comprometida com o câmbio sobrevalorizado, os juros elevados, a logística deficitária e os tributos e encargos a solapar os resultados das empresas. Os Estados mais desenvolvidos do Sul sofrem mais com esses desequilíbrios, pela expressão dos manufaturados na sua produção e exportação. No sudeste e Centroeste, ficamos a meio caminho, com o maior PIB regional dividido entre commodities e manufaturados, aí incluída a expressão inquestionável do agronegócio. O leite é um exemplo disso: Sofremos com as importações de leite em pó e soro, de um lado, e com os elevados tributos e encargos de outro. Entre as rochas e as ondas do mar, os produtores de leite brasileiros e capixabas são os que mais sofrem.
No Norte/Nordeste, o problema é menos visível pela pouca representatividade regional da produção de manufaturados e commodities, e o bolsa-família cala a boca dos desempregados e dos mais pobres. A dignidade do emprego está ainda muito longe de ser alcançada e as possibilidades de crescimento sustentável estão comprometidas. Mais no Nordeste do que em outras regiões, pela simples razão de que as riquezas naturais, a logística e a base industrial são mais limitadas naquela região.
O crescimento chinês de 2010 não se repetirá em 2011 e muito menos em 2012. Aliás, cresceremos 7,50% neste ano, depois de amargar crescimento praticamente zero em 2009. Portanto, estamos falando de 7,50% em dois anos, pois a base verdadeira é 2008. As projeções para 2011 e 2012 são 4,5% e 3,5%, respectivamente. Mais do que isso, os desequilíbrios internos e externos se acentuarão ainda mais e comprometerão gravemente o futuro do novo governo e a imagem do governante.
Qualquer que seja o eleito, não se pode esperar janeiro chegar. Há uma situação de urgência urgentíssima a resolver, para recuperar o equilíbrio econômico, perdido nos últimos anos. É fundamental, desde a transição, cuidar do câmbio e dos gastos do governo. Chegamos ao final de um governo com perdas e ganhos, avanços e retrocessos, vitórias e derrotas, e um grande desafio a superar: repor as contas públicas nos eixos e priorizar os gastos, para a economia continuar nos trilhos.
Wolmar Loss
Engenheiro Agrônomo, Mestre em Economia Rural
e Desenvolvimento Econômico

