O uso de tecnologias na agricultura brasileira se tornou comum pelos produtores rurais e é incentivado para obter boas produtividades. Mas poucos deles sabem que o que é usado atualmente para combater pragas e doenças nas lavouras e animais ou para dar impulso na produção, já foi motivo de tristeza para muitas nações. A utilização dos agroquímicos e outras ferramentas rurais aconteceram devido a segunda grande guerra mundial, que aconteceu entre os anos de 1939 e 1945, um período de perdas e revolução entre os países.
O Brasil participou da guerra após seis navios serem atacados pelos alemães. O país entrou no conflito se aliando aos Estados Unidos. A força expedicionária brasileira era composta por 28 mil combatentes. Um deles foi Jair Machado, que ainda tem na memória os momentos vividos na Itália. “A guerra começou em 1939, mas fui para o combate em 1944. Eu era da artilharia, só a bala de canhão podia nos atingir. Em um desses ataques, os alemães começaram a nos atacar e eu só via bala de canhão para todo lado. Para não sermos mortos ou presos por eles, caímos na água”, relembra da varanda de sua casa, em Linhares (ES), já com dificuldade para falar, devido os seus 86 anos.
A segunda guerra mundial foi o conflito que mais fez vítimas na história da humanidade, cerca de 62 milhões de pessoas morreram, entre soldados civis e militares. Cidades foram devastadas e a economia foi destruída. “Quando tudo acabou, em 1945, foi uma festa. Era próximo da virada de ano quando eu voltei para o Rio de Janeiro e depois para Linhares”, diz seu Jair com ar de alívio.
As batalhas no continente europeu não deixaram apenas desastres e mortes. Muitas descobertas importantes aconteceram graças à guerra. O fim do conflito, além de ter sido motivo de alegria para os combatentes, contribuiu para o crescimento da agricultura brasileira.
Segundo a professora de História, Sociologia e Filosofia, Maria Benedita Leite Alves, as duas grandes guerras mundiais foram responsáveis pela grande indústria agroquímica, resultante do esforço bélico. “A primeira guerra deu origem aos fertilizantes nitrogenados solúveis. Depois dessa guerra, as grandes instalações de síntese de amoníaco levaram a indústria química a buscar novos mercados. A agricultura, então, se apresentou como o mercado ideal”, afirmou Benedita.
Químicos das forças armadas americanas, durante a segunda guerra, pesquisaram substâncias que pudessem ser aplicadas do avião para destruir as colheitas dos inimigos. A primeira bomba atômica, no verão de 1945, viajava em direção ao Japão num barco americano com uma carga de fitocidas, suficientes para destruir 30% das colheitas. Mais tarde, na guerra do Vietnã, estes mesmos venenos, com outros nomes e agentes de outras cores, serviram para destruir dezenas de quilômetros quadrados de bosque e de colheitas. De acordo com a professora, do mesmo modo que os físicos que fabricaram a bomba atômica, os químicos que conceberam aquela forma de guerra química passaram a oferecer à agricultura os seus venenos, agora chamados “herbicidas”.
Com o fim da guerra, grandes quantidades de venenos foram armazenadas e havia uma grande capacidade de produção. Sem batalhas para utilizar as substâncias, elas acabaram encontrando outros campos. “Os químicos descobriram que o que mata pessoas também mata insetos, foi aí que surgiram os inseticidas. A agricultura serviu para canalizar as enormes quantidades armazenadas dos produtos, favorecendo o funcionamento das grandes fábricas montadas. Desde então, os pesticidas se transformaram em um dos melhores e mais fáceis negócios. Os mesmos grandes complexos industriais que induziram o agricultor para que destruísse os microorganismos do solo com sais solúveis concentrados, os fertilizantes minerais sintéticos, ofereceram os remédios para curar os sintomas dos desequilíbrios causados”, ressaltou Benedita.
Os agrotóxicos começaram a ser usados em escala mundial após a segunda guerra. Nas décadas de 1940 e 50, ocorreu uma enorme proliferação destas substâncias. No Brasil, o uso de agrotóxicos industrializados já tem mais de meio século. Naquela época era necessário aumentar a produção de alimentos no mundo para fazer frente ao crescimento populacional. Essa necessidade, aliada ao rápido desenvolvimento científico e tecnológico, promoveu a produção de uma quantidade enorme de poluentes.
“Os países que tinham a agricultura como principal base de sustentação econômica – na África, na Ásia e na América Latina – sofreram fortes pressões de organismos financiadores internacionais para adquirir essas substâncias químicas. A alegação era de que os agrotóxicos garantiriam a produção de alimentos para combater a fome. Sua utilização na agricultura nacional em larga escala ocorreu a partir da década de 70 e se estende até hoje”, finalizou Benedita.
Criticado por alguns e defendido por outros, os agrotóxicos foram determinantes para o aumento da produção de alimentos em todo mundo. A sua correta utilização ainda é motivo de debates dos setores científico e ambiental, que tentam aliar produtividade sem agressão ao meio ambiente e à saúde humana.
Revista Campo Vivo
matéria publicada na edição 06

