A campanha eleitoral do primeiro turno não incluiu, com a ênfase necessária, os problemas dos gastos públicos e dos desequilíbrios provocados pela sobrevalorização cambial, além dos graves problemas de infraestutura que afetam o agronegócio brasileiro.
O câmbio sobrevalorizado talvez seja, dentre todos os problemas, o que mais interfere de imediato na renda dos atores das cadeias produtivas do agronegócio, além de alcançar também outros setores industriais, a ponto de se cunhar, recentemente, o termo desindustrialização. A indústria calçadista, por exemplo, pujante no passado recente, tem sido vítima das importações e das dificuldades de exportação.
O Governo Federal acaba de anunciar, talvez por conta do segundo turno das eleições presidenciais, e da derrota no cinturão do agronegócio no primeiro turno, a elevação do imposto sobre operações financeiras (IOF) para as aplicações de dólares em renda fixa. Apesar de um aumento importante no IOF, isso não resolve e certamente o câmbio permanecerá sobrevalorizado.
Talvez tenha sido antecipado o problema da doença holandesa, mesmo sem jorrar petróleo do pré-sal, pelas circunstâncias da economia global e pela elevada dívida pública interna, remetendo-nos a um círculo vicioso. Explico: guerra cambial entre países, para competir em exportações; juros baixos no mercado global, para dinamizar as economias; exportações inibidas e importações estimuladas pela sobrevalorização cambial no Brasil; abundante ingresso de dólares no Brasil, pela capitalização da Petrobras e especulação financeira, em vista dos elevados juros internos, com dívida pública de cerca de 1,50 trilhões de reais; remessa de lucros para fora, induzida pela sobrevalorização cambial; desequilíbrio nas contas externas.
Nestas circunstâncias, as cadeias do agronegócio voltadas preponderantemente para exportações estão prejudicadas e as saídas não são simples. Há convergência entre a maioria dos economistas sobre a necessidade de reduzir os juros internos, mas para isso é preciso reduzir as despesas correntes, amortizar gradualmente a dívida interna e, ao mesmo tempo, amplia os investimentos em infraestrutura, outro gargalo importante a dificultar nossas exportações. Esta é a razão por que há um sentimento coletivo de que o agronegócio precisa ser mais bem debatido neste segundo turno.
Os problemas mais evidentes na economia, no gasto público, na infraestrutura e no comércio internacional não estão circunscritos ao agronegócio, mas certamente ele é o mais imediatamente afetado em vista do seu peso nas exportações brasileiras.
Precisamos estar atentos às propostas dos dois candidatos, mesmo porque a armadilha cambial em que nos envolvemos requer o reconhecimento de ajustes importantes na política cambial, nos juros e nos gastos públicos e que o eleito precisa reconhecer que não haverá crescimento sustentado com os desequilíbrios identificados. O agronegócio e a sociedade brasileira agradecem.
Wolmar Loss
Engº Agrº – Mestre em Economia Rural e
Desenvolvimento Econômico

