ARTIGO – Café Conilon: O “boi de piranha” da cafeicultura

por admin_ideale

 


Há dez anos faço análise do mercado do café e a história é sempre a mesma: quando falta arábica no mercado, por causa da bienalidade baixa, e o custo de produção da indústria de café sobe, o café conillon vira vedete.

 Dei o nome de boi de piranha a este artigo, porque este é o nome dado ao boi que é sacrificado pelos boiadeiros, quando precisam fazer a travessia de rios cheios de piranhas (peixe carnívoro que povoa algumas bacias hidrográficas brasileiras) no Pantanal Mato-grossense. Eles pegam o boi mais fraco, com menos valor agregado, sangram o boi e jogam no rio, abaixo. Os boiadeiros esperam que o cardume ataque o boi. Enquanto as piranhas comem o boi vivo, os demais animais, sadios, atravessam tranqüilos e seguem para as novas pastagens, onde ganham mais valor agregado. Enquanto o preço da saca do arábica está na estratosfera, o conillon quebra o galho, atendendo as necessidades do mercado, por ter um preço historicamente mais baixo.

Não existe política de valorização do café conillon: existe sim, política de formação de preço de café industrializado, para não gerar impactos assustadores para os consumidores. Com a alta estimada de 12% no preço do café, que ainda é tratado como produto da cesta básica do brasileiro, há um risco eminente da meta de 21 milhões de sacas consumidas ano não serem atingidas nos prazos projetados.

Isso me permite a dizer que a idéia de produção de café conillon de altíssima qualidade é apenas um subterfúrgio para aumentar a rentabilidade industrial, aumentando a participação deste grão nos blends em até 40%, que é uma tendência global. Um aumento dessa natureza não seria ruim, desde que politicamente, o processo de compra tivesse continuidade, independente das condições do mercado de café arábica. A história comprova que esta necessária continuidade não existe, porque o que coordena a ação de compra industrial é o preço da saca de café, combinada com o padrão de qualidade mínimo aceitável para a composição de qualquer blend. Não há nada alusivo a qualidade nisso: apenas matemática e gestão financeira. O produtor de café conillon é o primeiro a sofrer quando a produção o preço da saca do café arábica atinge patamares aceitáveis mercadologicamente e o Governo Brasileiro investe em estoques reguladores. Quando a saca do arábica voltar a ficar barata, ninguém vai se lembra de que o conillon existe, exceto a indústria de café solúvel, que historicamente é o principal cliente deste grão em nosso território.

O café conillon ainda é a base estratégica para a formação do blend do café tradicional que é vendido no Brasil. Mais de 90% do café industrializado vendido no Brasil é tradicional e ele precisa ficar entre os limites superiores e inferiores de preços para que os consumidores brasileiros não o substitua por chá mate. Em microeconomia, o chá é considerado o produto substituto do café.

O uso é relevante, porque o grão de robusta (ou conillon) impacta no aumento de sólidos solúveis na mescla, além de ampliar a cremosidade do café espresso: ele possui mais óleo por grão do que o arábica e em razão disso, o espresso produz mais creme. Ao mesmo tempo, como sua bebida é neutra, ele equilibra os defeitos do arábica e confere maior corpo a bebida. Trabalhei um tempo com classificação e degustação de café e os resultados com o uso de robusta sempre foram fantásticos.


Apesar de todas as suas características nobres, o conillon somente é lembrado nos momentos de crise e é para este ponto que quero chamar a atenção. Para que o mercado de conillon se firme de forma consistente, o primeiro passo seria a revitalização do contrato futuro de café conillon na BMF/BOVESPA, vinculada a estratégia de criação maciça de Indicações Geográficas. Estes dois itens permitiriam a criação de linhas exclusivas de cafés industrializados 100% conillon.


Depois é preciso investir num programa de educação para consumo exclusivo para esta modalidade de café. A idéia historicamente defendida não é a do “um país, muitos sabores”? Não é exatamente isso que o S adicional presente na marca Cafés do Brasil quer dizer? Observem que até mesmo o Super Café é um grão de arábica. Ele tinha de ter um irmãozinho, levemente alongado, como um grão de robusta é. Se não for assim, eu não acredito em política de valorização do Café Conillon no Brasil. Ano que vem a bienalidade do arábica estará em alta e a minha tese será comprovada. Estamos acompanhando… Espero estar errada, sinceramente.


 


Mara Luiza Gonçalves Freitas


*Docente de ensino superior, especializada em cafeicultura empresarial. Coordenadora do curso de Administração da Faculdade de Ciências Contábeis e Administração do Vale do Juruena. E-mail: adm@marafreitas.adm.br

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