CRÔNICA – O chofer e a fazenda Ceará

por admin_ideale

Inventei de fazer horas enquanto esperava o chofer para realizar uma pequenina viagem. Surpreendentemente, o bom e simpático chofer demorou-se por razões que me resguardo em revelá-las – afinal a história tem lascas de intimidades, ou melhor, passa por segredos de alcova. A propósito, como deve ser interessante dispor e vivenciar segredos de alcovas, afinal surgem lembranças de festins coloniais, silêncios proibitivos, portas cerradas e, certamente, enredos lascivos. A vida é realmente uma mesa posta onde há de tudo, não obstante tudo convenha, palavras sacras do rabino Nilton Bonder, que presta seus serviços na Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro; conheço-o e sei de sua doçura humana.


        


         Por essas muitas dualidades, o mundo vai cumprindo sua ardência histórica; o resto é o resto, na acepção exata da palavra. Meu avô dizia: “Filho, não fecundes o mundo a sua maneira… a vida jamais será contida por desejos pueris”. Morreu muito velho e feliz, nada sei de seus pinotes, falam até hoje, e mesmo depois da viuvez precoce cumpriu a castidade ad perpetuam. Tinha lá sua ciência.


 


E o chofer? Como se demora! Não tenho dúvidas: cumpre os mistérios da alma e da carne. Encurralado pelo tempo, acomodei-me pelo Café Classe A. Tinha de surrupiar o tempo. Abri a bolsa puída e pus-me a ler alguns poemas de Marina Colasanti, que, nascida em Asmará, Etiópia, morou pela Itália, e muito jovenzinha se radicou na cidade do Rio de Janeiro. Um só poema de título “Fartura” vale o livro. É de um erotismo contido e maduro: “Agradeço, Senhor / as três orquídeas roxas/ no jardim/ e as mãos do meu amor/ nas minhas coxas”. Arrebatador, ciente da intimidade, mas sem desandar para um hedonismo fácil e bronco.


 


         Finalmente o chofer. Surge cabisbaixo, acabrunhado, solta palavras desencontradas. Apresentava claramente o rosto inchado e mal dormido. Esquiva-se. Vivia um desconforto de dar pena.


 


     — E aí… O que aconteceu?


         — Nem lhe digo!


         — Como?


         — Perdão! Estava envolvido com uma emperiquitada de decote sutil e lábios carnudos…


         — Entendo. Por ali fiquei. O sol já estava alto e necessitávamos chegar à fazenda Ceará, bonita e bem cuidada propriedade do cacauicultor Paulo Roberto Gonçalves. O dia de campo já saltava com sucesso. O cacau era a tônica.


        


         Fui ficando por ali. Passei pela casa de dona Antônia Maria de Jesus, negra antiga, 85 anos, louceira, doceira, devota de Santa Luzia. Dona Antônia me disse com voz quase inaudível: “Moço, fiz de tudo nas muitas roças de cacau… costumava fazer bandeira e tomar conta dos meninos ricos”. Ainda rodeou por outros relatos. Parecia desejar soltar-se ante o presente. Sua natureza era diametralmente oposta a minha; mundos generosamente antagônicos. Dona Antônia lembrava uma personagem de Rosa, embutida pelos muitos massapés de Linhares.


        


         Voltei tarde. Fiz um café encorpado. Fui ler um bom livro antes de dormir. A noite permitia paz e um desejo imenso de viver.


 


 


Antonio Bezerra Neto


 


secretário de cultura de Linhares

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