
No campo, o papel das mulheres já não se limita à participação nas atividades da propriedade. Cada vez mais, elas estão à frente de decisões, negócios, tecnologias e novos modelos de produção. No Dia Internacional da Mulher Rural, celebrado neste 15 de outubro, a história de Rosana Pandolfo e Thaís Guimarães e Souza, do Viveiro Diva, em Linhares, ajuda a mostrar essa transformação na prática com a produção de mudas de cacau.
A trajetória das duas também reflete em um movimento que vem ganhando força no agronegócio brasileiro. Dados recentes da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) apontam que as mulheres representam 40% dos 10,7 milhões de produtores rurais decisores do país. Segundo o estudo “Perfil da Mulher do Agronegócio Brasileiro: 10 anos de transformação e avanços”, esse avanço é marcado por maior qualificação profissional, presença na propriedade, adoção de tecnologias e desempenho consistente nas relações de crédito.
A história mais recente do Viveiro Diva, que atravessa a segunda geração, começou durante a pandemia, quando elas deixaram as atividades que desempenhavam em grandes empresas. O primeiro movimento da família foi a renovação de uma área de cacau em cabruca, sistema agroflorestal em que a fruta é cultivada sob a sombra de árvores da Mata Atlântica.
A necessidade de escolher os clones adequados para a renovação da lavoura levou a família a buscar conhecimento sobre a cultura e qualidade das mudas. Foi desse processo que surgiu a decisão de fortalecer o viveiro.
Embora o empreendimento já tivesse cerca de 15 anos, Rosana e Thaís configuraram o novo negócio em 2023. A experiência adquirida na renovação da própria lavoura passou a orientar também a produção de mudas destinadas a outros produtores, em termos de qualidade dos materiais e inovação.
Do legado familiar ao protagonismo feminino
Para Rosana, a relação com os clientes e os resultados do trabalho ajudam a mudar a percepção inicial de um setor que a presença masculina ainda é predominante. “Para mim, estar à frente como mulher é só a barreira de entrada. Depois que as pessoas nos conhecem, vê nosso trabalho e os resultados, esse mito, vamos dizer assim, é superado rapidamente”, relata Rosana.
A participação feminina não está restrita à gestão. No Viveiro Diva, quatro das cinco pessoas que trabalham na atividade são mulheres. “A presença feminina na equipe começou, inicialmente, como uma alternativa diante da dificuldade de encontrar mão de obra masculina. Com o tempo, percebemos que as características do trabalho no viveiro se adaptavam bem às habilidades das profissionais”, explica Rosana.
O nome do viveiro também é inspirado na força de uma mulher, a bisavó de Thaís, que, segundo a família, já exercia atividades que estavam à frente de seu tempo. “Ela administrava os negócios da família, cuidava da parte rural e também mantinha um negócio próprio, em uma época em que a presença feminina fora de casa ainda era menos comum”, comenta Thaís.

Inovação na cacauicultura
Além da gestão do viveiro, Rosana e Thaís apostam na inovação para tornar a produção de mudas mais sustentável e contribuir para os desafios enfrentados pelos produtores de cacau. Uma das principais iniciativas é o uso do paper pot, recipiente biodegradável que surge como alternativa às tradicionais sacolas plásticas utilizadas nos viveiros.
A tecnologia passou a fazer parte da produção do Viveiro Diva por meio do InovaMudas, projeto apoiado pela Fapes e Seama. Para avançar no desenvolvimento do sistema aplicado à cacauicultura, o viveiro firmou uma cooperação técnica com o Incaper, pioneiro nos estudos com a tecnologia paper pot no Espírito Santo.
“Quando decidimos trabalhar com o paper pot na cacauicultura, pensamos em questões muito práticas para o produtor, como sustentabilidade, qualidade do enraizamento, logística e facilidade de plantio. Sabemos que a mão de obra é hoje um dos grandes gargalos no campo, e essa tecnologia pode ajudar a tornar o trabalho do produtor mais eficiente”, explica Rosana.
A iniciativa já ganhou escala no viveiro. “Hoje temos 4 mil mudas em produção no paper pot e estamos iniciando um novo lote de mais 6 mil. Acreditamos que a tecnologia tem muito a contribuir para a cacauicultura em seus diversos arranjos”, afirma Thaís.
Valda Ravani, jornalista

