ARTIGO – Agricultura e consumo de água
Hoje somos 7 bilhões de pessoas no planeta, e as projeções indicam que em 2050 seremos 9 bilhões. Ao se considerar os hábitos de consumo da classe média, que cresce muito em países emergentes, o consumo alimentar vai ampliar em pelo menos 70% nos próximos 38 anos, segundo a ONU. Detalhe: uma pessoa adulta precisa de 4 litros de água por dia para beber, mas para produzir seu alimento diário são necessários de 2 a 5 mil litros.
Registra-se que 97,5% da água do planeta é salgada e está nos oceanos. Outros 2,15% é doce e está congelada nos polos. Apenas 0,35%, também água doce, está nos rios, lagos e subsolo. Esta pequena parcela é a que está disponível ao consumo humano, dessedentação de animais, indústria e agricultura, para a produção de alimentos, fibras e energia renovável.
Atualmente, cerca de 70% dos recursos hídricos disponíveis no mundo são destinados ao uso agrícola, contra apenas 20% para a indústria e 10% para abastecimento da população (higiene e consumo).
Mas, o uso de água na agricultura não é um vilão, muito pelo contrário. Na verdade foi determinante para ampliar a oferta de alimentos e reduzir a fome no mundo. Embora a população mundial tenha dobrado nos últimos 50 anos, a área ocupada com agricultura cresceu apenas 12%. E a irrigação foi uma das principais tecnologias que justificam esse fantástico ganho de produtividade no campo.
Contudo, a permanecer as mesmas práticas e sistemas de irrigação, o consumo de água cresceria 55% para suprir a necessidade de alimentos. Como consequência, em apenas 20 anos, a demanda de água pode ser maior do que a oferta.
Assim, a equação que precisamos resolver é: como aumentar a produção de alimentos num cenário em que água é um bem cada vez mais escasso?
E são muitas as variáveis a se considerar para resolver essa equação. Pagamento por serviços ambientais a agricultores que conservam nascentes e investimentos em atividade florestal, que é poupadora de recursos naturais, são estratégias importantes, e que há boas experiências em curso aqui no Espírito Santo, por meio de projetos do Governo do Estado, como são os casos do “Produtores de Água” e do “Reflorestar”.
Os investimentos em infraestruturas tradicionais para reservar água, como barragens, também são necessários para se reduzir os riscos dos agricultores às intempéries climáticas, tão comuns durante os ciclos dos cultivos, e que causam enormes prejuízos.
A escolha das tecnologias mais adequadas à produção agrícola, aliada ao uso de métodos de irrigação que evitem o desperdício de água, que está próximo de 50%, é fundamental para atender à demanda por alimentos, com o mínimo de impactos ambientais.
E quando adotamos um modelo de produção que se harmoniza com os ecossistemas, e não se pauta apenas na oferta de alimentos e outros bens, haverá impactos positivos na mitigação de enchentes, recarga de aquíferos, controle de erosão e nos habitats para plantas, aves, peixes e outras espécies, o que garante a biodiversidade.
Nesse contexto, se os benefícios decorrentes de uma produção sustentável no campo, por meio do uso mínimo e eficiente dos recursos naturais, geram benefícios para todos, é justo que toda a sociedade pague essa conta, e não somente os agricultores. E a água, esse insumo fundamental à vida, em seu sentido mais amplo, será suficiente e um bem de e para todos!
Enio Bergoli
Secretário de Agricultura do Espírito Santo
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