CRÔNICA – O mundo rural das casas-grandes

por admin_ideale

 

Como de hábito, vou divagar um pouco. Paciência. Sob o ponto de vista histórico, o termo “casa-grande” passa ao largo das muitas alusões históricas sobre Linhares. Definitivamente, o termo não se ajusta às variantes destas terras, e as razões são notórias: nosso propósito é criar uma espécie de tênue processo de história comparada. É de boa serventia afirmar que a ingenuidade histórica é irmã siamesa do desatino e dos sonhos utópicos, em que pese a expressão de Darcy Ribeiro, o qual proclamava: “Deus amara-me de utopias prenhas almas”. O velho e bom Darcy tinha suas fábulas, suas belas loucuras, no entanto, dizem muitos, faltava-lhe o cuidado com o rigor histórico.


 


O termo casa-grande é dos mais tradicionais na historiografia para designar o modus vivendi dos grandes senhores escravistas, transcendendo o que seria o local de moradia dos senhores para aludir, simbolicamente, ao poder e ao patriarcalismo coloniais, como ensina Ronaldo Vainfas, conhecedor dos mais variáveis recantos da história colonial brasileira.


 


Gilberto Freyre (1900–1987), com seu jeito rebuscado e elegante, deixou dito: “A casa-grande do engenho que o colonizador começou, ainda no século XVI, a levantar no Brasil, com grossas paredes de taipa ou de pedra e cal, telhados caídos num máximo de proteção contra o sol forte e as chuvas tropicais, não foi nenhuma reprodução das casas portuguesas, mas expressão nova do imperialismo português. A casa-grande é brasileirinha da silva”. Dr. Gilberto Freyre é arrebatador no seu comentário.


 


É fato afirmar que a casa-grande acolhia uma rotina encabeçada pelo senhor de engenho, cuja estabilidade patriarcal estava amparada no açúcar e no escravo. Ela servia de cofre e de cemitério, na expressão gilbertiana. Ainda que diretamente associada ao engenho de cana e ao patriarcalismo nordestino, não era exclusiva dos imponentes senhores de engenho. Podia ser encontrada no sudeste do país, nos plantios de café, como um predicado da cultura escravocrata e latifundiária do Brasil. E fica a ideia de história comparada: Linhares não experimenta esses arroubos, afinal o lastro da escravidão clássica não passa por estas terras.


 


O Estado do Espírito Santo guarda um exemplar impressionante de como era uma casa-grande. Estou a falar do Solar Monjardim, em Jucutuquara, sede do museu homônimo, o mais importante do Estado, pertencente à Universidade Federal do Espírito Santo. É, possivelmente, a mais antiga edificação rural particular do período colonial espírito-santense.


 


Conheci muitas casas-grandes ainda vivificadas pela vastidão dos sertões vestidos por cactáceas as mais diversas. Pelas suas despensas muito queijo gordo, coalhada, chouriço, rapadura do Cariri, batata-doce, mel de urucu, farinha de mandioca, beijus, doces e os gritos traquinas de meu pai. Ficaram as saudades, os beijos da mamãe e o alumiar dos relâmpagos nas paredes encardidas de anos.


 


 


 


 


Antonio Bezerra Neto


Secretário de Cultura de Linhares


 


 


 


Crônica publicada na edição 09 da Revista Campo Vivo – março/2011


 


 


 


 


Comente esta notícia. Clique aqui e mande sua opinião.


(É necessário colocar nome completo, e-mail, cidade e o título da notícia comentada. Todos os comentários enviados serão avaliados previamente. O Portal Campo Vivo não publicará comentários que não sejam referentes ao assunto da notícia, como de teor ofensivo, obsceno, racista, propagandas, que violem direito de terceiros, etc.)


 


Siga o Campo Vivo no Twitter  @CampoVivo
O Campo Vivo também está no Facebook


 


 


 


 


Comentários



 


Julia Moreira – Rio de Janeiro / RJ – 15/11/2011 – 19:30

Senhor editor, Uma preciosaidade a crônica de Antonio Bezerra Neto, publicada na Revista Campo Vivo. O fato de ser linharense me deixou muito feliz. Bela crônica! Seu texto está no nível dos grandes jornalistas do Brasil.


 


Ivanez Mendes Junior – Currais Novos / RN – 15/11/2011 – 09:42

Nobre amigo; Antonio Bezerra Neto (Bezerrinha). Quero daquí destas terras do nosso querido Seridó,parabenizar-te pelo brilhante texto.Isso nos faz dar umpasseio no passado da nossa infãncia vivida no apogeu do algodão mocó,onde saboreávamos queijo fresco na CASA GRANDE de meu avõ Severino Mendes.De lá dávamos uma esticada até os MACACOS fazenda de seu pai Janot Bezerra e findávamos o dia ouvindo as sábias prosas do meu tio PIANO nos alpendres da CASA GRANDE DO TRANGOLA. Grande abraço ,caríssimo amigo catedrático


 

Você também pode gostar

Reset password

Enter your email address and we will send you a link to change your password.

Powered by Estatik

Este site usa cookies para melhorar a sua experiência. Vamos supor que você está de acordo, mas você pode optar por sair, se desejar. Aceitar