ENTREVISTA – Erli Ropke, presidente da Asplames

por admin_ideale

 

 


Presidente da Asplames fala sobre crescimento do setor no Espírito Santo, principais desafios e a importância da boa procedência das mudas para o agronegócio


 


 



Com 27 anos de atuação na área, Erli Ropke é sinônimo de plantas, mudas e sementes. Experiência que começou na propriedade da família, em 1984, em Baixo Guandu, com mudas de café e citros. Depois disso, ficou 11 anos trabalhando em projetos de desenvolvimento da Igreja Evangélica de Confissão Luterana, em Laranja da Terra e Afonso Cláudio, onde trabalhou com frutíferas e essências nativas. “Aqui foi a minha escola nesse ramo”, lembra. Com a bagagem adquirida e já com curso técnico em agropecuária, em 1995 abriu um viveiro de mudas, Frucafé, em Afonso Cláudio. Veio para Linhares em 2001 com a empresa e foi no município que junto com outros quatro donos de viveiros idealizaram a criação de uma associação para fortalecer o segmento. Em 08 de julho de 2005, a ideia se concretizava na Associação dos Produtores de Sementes, Mudas e Plantas do Espírito Santo (Asplames), entidade presidida por Erli até hoje. Atualmente, com 18 associados, a associação representa a força do setor na agricultura capixaba. “Temos 530 viveiros registrados no Espírito Santo com Registro Nacional de Sementes e Mudas, ou seja, autorizados a produzir mudas. Os maiores estão na Asplames. Acredito que o Estado produz mais de um bilhão de mudas, o que gera mais de cinco mil empregos diretos no setor. É um chute, que não vai com tanta certeza, mas a estimativa é em torno disso”, diz Ropke.


Da sede de sua empresa, Erli Ropke concedeu esta entrevista à Revista Campo Vivo, destacando a importância de o produtor exigir mudas de qualidade. “Por causa da diferença de R$1,00 ele sacrifica a roça por 30 anos. Tem que ter paciência e calma na hora de plantar. Não adianta o produtor de mudas impor essa necessidade. A consciência da boa procedência das mudas deve ser do consumidor”, diz antes de iniciar a entrevista.


 


Campo Vivo: Qual a análise que pode ser feita do crescimento do setor de plantas, mudas e sementes nos últimos anos no Espírito Santo?


Erli Ropke – Dentro da Asplames, que gira em torno de 16 a 18 associados, nós produzimos, aproximadamente, em 2008, 100 milhões de mudas, sendo o eucalipto o carro chefe. Em 2009, a gente estima mais de 120 milhões. Houve uma queda muito grande no eucalipto em 2009 com a crise. Já em 2010, foi estimado algo perto de 160, 180 milhões de mudas. O eucalipto de novo como o carro chefe, seguido pela seringueira. No ano passado, café estabilizou, porque ele teve uma queda em 2008, porém teve um crescimento do eucalipto, do cacau, da seringueira e das frutíferas. O produtor tradicional de culturas anuais e semi-anuais, como maracujá e mamão, amadureceu na idade e também na concepção de que ter uma cultura perene na propriedade traz equilíbrio de mão-de-obra. Maracujá, café e mamão concentram mão-de-obra. Então se ele tiver café, cacau e seringueira, ele distribui a mão-de-obra na propriedade. E eles estão descobrindo também que em culturas perenes você investe pesado uma vez e depois é só manter. O risco de baixa e alta é muito menor. Determinadas culturas, como seringueira e cacau, ele vai colher por muito mais de 20 anos. E uma coisa que está despontando agora é o casamento do cacau com o coco. Com um detalhe: nem o cacau nem o coco têm mudas disponíveis. Já as mudas ornamentais desde 2002 têm um crescimento contínuo. Teve uma pequena queda no segundo semestre de 2008 e no primeiro de 2009 com a crise. Mas agora as ornamentais têm um mercado estável e crescente. Então, podemos fazer essa análise. Com a crise, as pessoas conseguiram ver um pouco a importância de fazer um investimento mais seguro. Esse produtor que investia pesado em culturas de risco, ele percebeu que aplicar o dinheiro no mercado financeiro é estar correndo o risco de perder esse negócio. Mas se tiver uma roça de seringueira que dá látex todo mês, ou de cacau que colhe seis meses durante o ano, tem mais segurança.


 


Campo Vivo: Existem dados em relação a representatividade deste setor na economia agrícola capixaba?


 


Erli – Não temos esses dados, mas eu diria o seguinte: o Espírito Santo hoje não precisa exportar nenhuma muda de fora, com exceção de algumas plantas ornamentais. Na fruticultura e nas culturas de seringueira, hortaliças e outras, o Estado hoje é auto-suficiente. É o mais organizado no setor em todo o Brasil. Isso é uma informação do Ministério da Agricultura. Para ter uma ideia, em julho do ano passado, 60 fiscais federais de todo o Brasil vieram aqui para fazer um curso dentro da Asplames sobre como produzir e fiscalizar mudas. As mudas são o início de uma produção. Interfere no resultado final do agronegócio. O produtor compra um café que dá 30 sacas por hectare e compra um que dá 130 sacas. Isso vai depender do viveiro em que ele vai comprar. A conscientização do cliente sobre a qualidade e a procedência da muda vai resultar em uma produtividade maior. Isso significa mais renda, mais emprego e mais resultado no agronegócio. Há 10 anos, nós plantávamos eucalipto com mudas produzida por semente, 20% das plantas não atingiam o padrão de qualidade para corte e viravam varetas que serviam para escora, para lenha. Hoje, praticamente 95% das mudas plantadas viram madeira para corte. O clone do eucalipto avançou a ponto de dar ao produtor a garantia de volume e mais qualidade. A muda clonal pode dar até 25% mais madeira que a muda por semente. Se você for pensar nisso, nos milhares de hectares que são plantados todo ano no Estado, isso significa um resultado assustadoramente grande.


 


Campo Vivo – Existem muitos produtores ilegais atuando no Estado?


Erli – No Espírito Santo estamos com poucos viveiros ilegais de porta aberta ao público. Tem três situações: alguns viveiros ilegais, de produtores pequenos, familiares, que vendem dentro da comunidade e produzem muda de café a pedido de 10 clientes vizinhos dele; e tem aquele que o produtor produz pra ele próprio (para as fazendas dele) ou para os meeiros. Mas tanto um quanto outro deveriam ter o Renasem. A outra situação é gente que tem revenda de mudas de plantas, aí principalmente no setor ornamental, trazendo e importando mudas. Esse é o nosso problema. Eu diria que esse viveiro comunitário e o viveiro próprio são problemas muito pequenos quando comparados à quantidade de mudas que entram clandestinamente de outros Estados em terras capixaba. E muitas vezes entram com nota, mas não tem uma procedência legal. Na verdade, foi produzido lá de qualquer jeito e alguém documentou essa planta e trouxe para cá. Quanto às frutíferas, nós ainda temos a entrada de mudas de plantas tropicais como pêssego, caqui, uva, ameixa, morango e, principalmente, citros. Sem falar no citros de Santa Leopoldina que ainda está muito aquém da qualidade que deveríamos ter. Temos 60 famílias lá que produzem no padrão de 20, 30 anos atrás. Nada compara com o que nós estamos fazendo aqui.


 


Campo Vivo: Quais os riscos dessa produção irregular?


Erli – Produção irregular pode ser uma planta com longevidade menor. Uma planta que duraria 30 anos, vai durar 10, 8 ou 6. O pior não é a idade que termina, o pior é a idade que começa a morrer. O produtor que tem um plantel de mil plantas, se no terceiro ano já começar a morrer planta, no oitavo ano ele só terá 30, 40% do pomar. Ele já vai ter prejuízo desde o início da colheita, quando o primeiro pé começou a produzir, começou a morrer. Com o pó de enxerto correto, com a semente correta e/ou com o clone correto, você terá uma garantia de todas as plantas estarem produzindo todo o período. Então, quando o produtor resolver eliminar a roça é por causa da idade avançada de todas as plantas. Esse é um diferencial muito grande, por exemplo, para um produtor que planta 50 hectares de coco. Imagina o coco, que a muda é feita por semente: se ele pegar a semente errada e de cada 10 plantas saírem duas erradas. O lucro dele já vai embora, porque no coco a lucratividade não chega, às vezes, a 20%. Se você vai fazer um citros irrigado tem que ser um determinado pó de enxerto. Se for um citros na montanha, sem irrigação, é outro pó de enxerto. Na região quente é outro tipo, na região fria é mais outro ainda. São tipos de coisas que o produtor, às vezes, não sabe, e o produtor de mudas não tem se alertado para isso. A conscientização do cliente ainda é o fator mais importante para se ter a legalização e normalização do setor. Não adianta impor ao produtor ilegal de mudas que ele se organize, que ele tenha uma muda com padrão melhor. O interessante é o produtor chegar nesse viveiro e perguntar “de que clone você está fazendo este café? De que planta você tirou esse galho? Deixa eu ver sua matriz. Você tem o certificado dessa muda? Não tem, então não vou comprar com você, vou comprar onde tem.” Se todo cliente, tanto os produtores e até mesmo as donas de casa que compram mudas para o jardim, sempre perguntar pela procedência daquela muda, já teríamos avançado mais no setor. Mas eu diria que nos últimos cinco, seis anos o setor evoluiu muito. Hoje nós temos uma tecnologia de altíssimo nível para a produção de mudas.


 


Campo Vivo: Falta consciência do produtor quanto ao resultado que ele vai ter no campo utilizando uma muda de qualidade comprovada?


Erli – É importante você lembrar que são duas coisas: a qualidade visível, onde você está olhando para a muda e está vendo que ela está bonita. E a segunda coisa é a genética dela. A muda pode estar bonita, mas não ter genética para produzir. Nos últimos cinco anos houve um avanço muito grande porque as maiorias dos viveiros hoje só trabalham com venda de mudas para roças comerciais via contrato-futuro, ou seja, o produtor vem aqui e encomenda 10 mil mudas de cacau para pegar em março de 2012. E paga antecipado por um produto que ele discutiu junto ao produtor de mudas qual será o clone, qual será a sacola, a quantidade de substratos e o dia da entrega. Ele acaba gerando um ciclo de informação produtiva. Por ele plantar só daqui um ano, ele fica buscando informações até essa muda chegar. Isso é o contrário do produtor que resolve plantar em uma ‘roda de boteco’ e no outro dia ele já começa a fazer covas, já põe irrigação e só depois sai para conseguir as mudas. Isso é totalmente errado pra quem quer ter colheita garantida no futuro.


 


Campo Vivo: Dentro do setor de mudas e sementes, qual o segmento que se destaca hoje?


Erli – Hoje no ES, no setor de mudas, é o eucalipto. O café vem em segundo lugar e depois nós temos as hortaliças e as frutíferas. Um segmento que está crescendo é o das essências nativas, que começaram a despontar no último semestre de 2010 e está evoluindo, já que tanto as empresas quanto os produtores precisam criar as reservas legais, que é determinada em lei.


 


Campo Vivo: Nesses seis anos de atuação da Asplames quais foram as principais conquistas? O que mudou?


A primeira conquista é o reconhecimento por parte do poder público, principalmente, estadual e federal. Hoje nós temos um reconhecimento muito grande por parte do Ministério da Agricultura e do Sebrae, que são dois órgãos federais. Aqui no Estado, tanto o Incaper quanto o Idaf, a Secretaria Estadual de Agricultura como um todo, realmente tem nos informado, nos procurado e nos chamado para os eventos e trocas de idéias. Isso é realmente um marco para as Asplames. O setor é respeitado e tem o reconhecimento da sociedade pública e privada. Depois, eu diria que com isso nós melhoramos a auto-estima do produtor de mudas que antes era “meio largado e escondido” e não gostava de aparecer. Agora, ele não quer nem ser chamado de viveirista mais, quer ser reconhecido como produtor de mudas: “Eu sou um produtor de mudas, eu faço parte da cadeia do agronegócio. Eu não tenho um negócio à parte.” Outra coisa importante é que os bancos estão começando a reconhecer a produção de mudas como um produto que pode ganhar custeio. O Sicoob e o Banco do Brasil já reconhecem, ou seja, já estão apresentando recursos para o custeio de mudas semestrais e anuais. Além disso, com o reconhecimento e valorização do setor, tanto o produtor de mudas vai pensar duas vezes em produzir mudas sem estar legalizado, quanto o Ministério de Agricultura e o Idaf não terão dúvidas de que precisam fiscalizar.  E isso eles já estão fazendo nos últimos anos, fiscalizando de forma educativa, conscientizando, e não repreendendo e multando. Deram um prazo para adequação às normas e os produtores fizeram.


 


Campo Vivo – Quais os projetos futuros?


Erli Ropke – Acabamos de assumir a Presidência da Comissão Estadual de Sementes e Mudas (final de novembro/2010), órgão de cunho estadual com a participação de todo o setor do agronegócio capixaba mais as instituições públicas estaduais e federais. A comissão discute e encaminha todos os assuntos referentes a sementes e mudas do Estado. Nossas metas para os próximos anos são: terminar de legalizar todos os viveiros do Espírito Santo para que todos tenham Renasem, depois todos terem fonte de material genético ou para viveiro registrado ou tem que indicar de onde pegam o material genético e ter também as inscrições dos lotes de mudas com toda a documentação necessária em dia; e depois nós pretendemos socializar para toda a sociedade capixaba e brasileira onde estão todos os produtores de mudas, e onde estão todas as matrizes de cada material, de forma organizada. Exemplo: seringueira, onde estão as melhores mudas, se estão sendo comercializadas, se são públicas, etc. E aquelas plantas que ainda não tiverem o seu padrão inscrito nós vamos chamar pessoas do setor para as inscreverem. Supomos que o citros não esteja pronto, o Estado não pode criar o padrão inferior ao padrão nacional, tem que ser igual ou superior. Mas se nós resolvermos fazer com um padrão superior, a Comissão Estadual pode propor tanto para o Governo do Estado quanto para o Ministério que seja homologado esse padrão. Isso é interessante, pois nos dá o poder de melhorar os nossos padrões de mudas e conscientizar os produtores que é possível ter uma muda melhor na sacola adequada e com o tamanho adequado.


 


Campo Vivo: Qual a expectativa do setor para os próximos anos?


Erli – A Associação está se organizando para ter um escritório executivo, com profissionais do ramo, para certificar os associados. Em segundo lugar, a Asplames quer trazer para o grupo mais trinta associados até o final de 2012. Se tivermos 50 associados, além de ter um caixa melhor para trabalhar na associação, vamos ter mais subsídio para o associado e para ajudar aquele que está chegando, ou seja, ajudá-lo a documentar e melhorar o padrão de mudas que ele está comercializando. Não vai ser um escritório que vai comprar e vender, mas vai ser para divulgar o trabalho do associado. Quanto a números, tenho certeza que vai crescer tanto o número de associados quanto a produção. Há uma tendência de cada produtor de mudas crescer de 10 a 25% nos próximos cinco anos. Então se nós temos uma produção de 200 milhões de mudas para 2011, podemos chegar a 220 milhões de mudas. Em quantidade de viveiros, eu acho que o ES não vai crescer muito. Até porque muitos produtores aparecem por causa do oba-oba do momento, que dessa vez é o cacau e o coco.


 


Campo Vivo – As mudas e sementes são o começo para uma boa colheita?


Erli Ropke – A escolha da variedade, da qualidade da muda e do cultivar exige paciência e calma, pois uma cultura perene vai ficar por anos na propriedade do produtor. Ás vezes, por causa de um real, cinqüenta centavos, na compra da muda, o produtor sacrifica a roça dele em 30 anos. Ou seja, ele sacrificou o lucro dele, do filho e do neto. Escolha a grama errada na hora de montar um campo de futebol e você jamais terá grama para jogar bola. É uma coisa muito simples, mas, às vezes, a pessoa não valoriza.


 


 


Revista Campo Vivo


Entrevista publicada na edição 09 – março/2011


 


 


 


Comente esta notícia. Clique aqui e mande sua opinião.


(É necessário colocar nome completo, e-mail, cidade e o título da notícia comentada. Todos os comentários enviados serão avaliados previamente. O Portal Campo Vivo não publicará comentários que não sejam referentes ao assunto da notícia, como de teor ofensivo, obsceno, racista, propagandas, que violem direito de terceiros, etc.)


 


Siga o Campo Vivo no Twitter  @CampoVivo
O Campo Vivo também está no Facebook


 

Você também pode gostar

Reset password

Enter your email address and we will send you a link to change your password.

Powered by Estatik

Este site usa cookies para melhorar a sua experiência. Vamos supor que você está de acordo, mas você pode optar por sair, se desejar. Aceitar