Ovos de ouro

por admin_ideale

 

A cidade se denomina a mais pomerana do Brasil. E é só chegar nela, pelas curvas da ES-261, que é possível constatar a força desses descendentes. Ao chegarmos à cidade, o ambiente festivo dos imigrantes contagia. Bandeiras da Pomerânia, país de origem dos desbravadores de Santa Maria de Jetibá, estão expostas nas casas, comércio, e nas ruas da cidade. Os habitantes vestidos com trajes típicos do extinto país europeu recebem com cordialidade os visitantes. Mas não é só pela expressão cultural e histórica que o município se destaca. Mesmo preservando as raízes culturais, o progresso também é observado. No primeiro semáforo que paramos, um caminhão carregado com caixas de uma granja local mostra a potencialidade na produção de ovos do município. Santa Maria é o segundo município que mais produz ovos no Brasil com uma produção estimada em 7,5 milhões de ovos, de acordo com dados do IGBE.


 



Centro de Santa Maria de Jetibá, decorada para destacar a ligação pomerana


 


A atividade é encontrada em grandes propriedades que trabalham com granjas mais tecnificadas. Outra parte da produção local é dividida em pequenos e médios produtores rurais, como é o caso de Manfredo Kruger. A propriedade da família fica na localidade de Rio Bonito. Kruger nasceu na região serrana capixaba e sempre trabalhou no campo. Resolveu ingressar na avicultura de postura em 1990.  No começo, ele criava as galinhas para aproveitar o esterco na horta da propriedade. “Naquela época, o grande lucro era o esterco. Hoje, pensamos em produzir ovos”, diz. A propriedade trabalha com café arábica, principal produto econômico da região, mas acredita no potencial da produção de ovos. “O desafio é em todas as atividades. Você tem que viabilizar, potencializar o que gosta. Por isso, considero a avicultura um bom negócio”, diz Kruger.


A limpeza das granjas é uma das receitas principais. O esterco é retirado e aproveitado na lavoura de café e também comercializado. O criador é associado da Coopeavi, a Cooperativa Agropecuária Centro Serrana. Lá, ele compra as pintainhas, a ração e comercializa os ovos.  “O segredo é no início. Com a pintainha bem tratada, vacinada, a gente trabalha despreocupado. Depois é a preocupação regular de tratamento das aves”, diz o avicultor. O sistema de criação de Manfred é o convencional. De acordo com ele, a estrutura para uma granja com capacidade para 10 mil aves fica em torno de R$80 mil, enquanto com equipamentos automatizados o valor sobe até oito vezes. Na granja do seu Kruger, as 26 mil aves produzem cerca de 21 mil ovos por dia. A alimentação dos animais é a base de milho e soja, acrescida de composto mineral. “Uma galinha come 100 gramas por dia e evacua 50. O esterco produzido vai para lavoura ou pode ser vendido”, diz.


 



Kruger: trabalhando na avicultura há 20 anos


 


A produção de centenas de produtores do município é comercializada para a Coopeavi. A entidade, fundada em 1946 com o objetivo de fortalecer a avicultura local, atende atualmente um plantel de 800 mil aves, entre assistência técnica, venda de rações e compra da produção. “O ovo chega no entreposto da cooperativa e o produtor recebe por peso, com preço baseado no JOX, índice de valores nacional”, explica Luis Carlos Brandt, gerente de comercialização de ovos da cooperativa. Após passar pela ovoscopia, sistema que analisa rachaduras nos ovos, o produto passa por uma máquina classificadora que divide os ovos por tamanho e, por fim, por uma última análise manual.  Antigamente, o procedimento era feito manualmente pelos produtores na roça. De acordo com Brandt, a comercialização na Coopeavi varia de 800 a 1.000 caixas por dia. “O preço pago ao produtor oscila de acordo com a demanda, principal fator dessa variação”, diz Luiz Carlos.


A produção de ovos de Santa Maria é vendida para diversas regiões. Alguns produtores comercializam direto com redes atacadistas. Outros preferem vender na Ceasa ou no comércio da Grande Vitória. No caso da Coopeavi, o principal destino é a região nordeste do país, onde os ovos são comercializados no varejo. “Isso aumenta o valor agregado e evita dificuldade de pagamento, além de diminuir a competição no mercado interno capixaba com os próprios produtores de Santa Maria”, explica Daniel Piazzini Neves, gerente de marketing da Cooperativa. A intenção da entidade é começar a exportar a produção, mas Luiz Carlos Brandt diz que o ovo é um produto diferenciado e depende de habilitações específicas.


 



 


Já pensando na conquista de novos mercados, a Coopeavi trabalha, junto aos seus associados, na implantação de uma gestão de qualidade, pautada nas boas práticas de produção. As oportunidades do mercado externo despertaram o interesse pela mudança da algumas práticas no campo. “Toda cadeia produtiva deve estar engajada neste processo, observando detalhes como os cuidados na armazenagem da ração, a higiene do trabalhador, dos animais, entre outros requisitos”, diz Fábio Júnior Braga, gerente executivo de produção. A busca pela qualidade dos ovos produzidos em Santa Maria de Jetibá ocorre paralelamente ao trabalho de desenvolvimento de uma marca para os ovos da cooperativa Coopeavi. O setor de marketing realizará uma ação para que os colaboradores da instituição sugiram nomes para a nova marca. Além disso, a entidade busca o diferencial do ovo local para ser destacado no mercado, baseado na qualidade e responsabilidade social com a agricultura familiar. “O papel da cooperativa é trabalhar com o produtor familiar. Nossa importância é muito mais social. Temos que melhorar a condição para o cooperado”, afirma Piazinni. Através de capacitações entre os produtores, Fábio Braga acredita que seja possível conquistar novos mercados. “A gente incentiva o avicultor a aumentar a qualidade e, com isso, conseguir agregar valor ao produto”, destaca.


Adepto da causa cooperativista há vários anos, Manfredo Kruger recebe assistência técnica da cooperativa em sua granja, uma das vantagens dos 120 associados da Coopeavi que trabalham com avicultura. A força do cooperativismo local, aliada a capacidade empreendedora de produtores mais tecnificados, proporciona a posição de destaque do município na avicultura nacional, que é motivo de orgulho para a população santa mariense. “Se tirar ovo de Santa Maria, quebra”, diz Manfredo, referindo-se a importância econômica e social da atividade.


 


Franco Fiorot


 


 


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