O campo está em festa. A forte demanda mundial por alimentos em 2007, que fez o faturamento do agricultor brasileiro crescer, em média, 14,5% nas 25 principais culturas, deve se repetir este ano, a despeito da possibilidade de recessão na economia americana e dos dissabores causados pelo embargo da compra de carne bovina pela União Européia. As condições, afirmam governo e especialistas, já estão dadas tanto do lado da oferta como da demanda.
A favor do Brasil há dois fatores importantes: o crescimento do consumo asiático, de cerca de 10% ao ano, e o forte aquecimento do mercado de milho para a produção de etanol nos Estados Unidos, o que fez com que caísse a área plantada nos EUA de soja e algodão, provocando alta nos preços dessas commodities. Em relação à demanda, a principal preocupação é com a China, mas, mesmo na hipótese de desaceleração, por uma queda das vendas para os americanos, o país não deixará de crescer.
“Se a China não crescer 11%, crescerá 8%. Qualquer evolução do consumo chinês é positiva”, afirma o superintendente técnico da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Ricardo Cotta.
Para Cotta, os produtos mais afetados num cenário de recessão nos EUA seriam os manufaturados.
No caso das commodities, seriam os itens não-agrícolas, como aço e cobre, porque o Brasil não concorre com os tigres asiáticos em alimentos.
“A recuperação de preços gerou grande otimismo”, resume o presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Cesário Ramalho da Silva.
O presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Wagner Rossi, destaca a mudança dos patamares de produtividade da agricultura nacional.
A safra de grãos 2007/08, diz a Conab, será de 134,8 milhões de toneladas, recorde histórico: – O único problema que poderá surgir, mas não em dimensões tão preocupantes, são fenômenos climáticos como La Niña (que pode causar seca). Mas estamos otimistas.
Ainda pesaram na alta das commodities a acentuada seca na Europa e a quebra da safra de trigo na Ucrânia. Com isso, o preço do milho subiu mais de 50%, o da soja, 80%, e o do trigo dobrou em 12 meses. A estiagem na Austrália também favoreceu o Brasil na venda de carne.
“Nunca, em tempos modernos, houve uma mudança de preços tão grande. Estamos voltando a vender a soja a R$ 40, o maior valor em 34 anos”, ressalta Ramalho.
Infra-estrutura limita crescimento O presidente da SRB observa que esse cenário pode não se confirmar, caso não se resolvam questões como o endividamento agrícola e a liberação do uso de milho geneticamente modificado.
Fora a valorização do real, diz ele, que causa descasamento entre rentabilidade das exportações e custos da produção.
Segundo a CNA, espera-se ainda redução do protecionismo agrícola, via acordo na Organização Mundial do Comércio (OMC). Entre os aspectos que limitam a alta da produção e da rentabilidade, está a infraestrutura: estradas ruins, portos ineficientes e baixo uso de hidrovias e ferrovias encarecem insumos e reduzem o valor pago aos produtores. Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres, 75% das rodovias estão em péssimas condições.
O Globo

