Crise, agronegócio e agricultura familiar capixaba

por admin_ideale

 


O princípio sociológico de que “nossa história permite projetar nosso futuro” nos faz voltar no tempo, resgatando elementos de nossa colonização, para entender nossa trajetória e delinear os novos desafios para da agricultura capixaba, em vista das condicionantes enfeixadas em ameaças e oportunidades que se nos apresentam, particularmente a grave crise financeira, de âmbito global, que estamos enfrentando.


Não é de todo desconhecido que, ainda no final do século XIX, o Espírito Santo já detinha a marca do café capitania, famoso por suas propriedades de aroma e sabor inconfundíveis. Assim descreve o historiador Antônio Athaíde: “As condições climatéricas e os agentes telúricos da nossa zona litorânea fixaram o habitat do tradicional capitania”.  E explica que o café em questão era obtido de variedades cultivadas à sombra na região litorânea do Espírito Santo.


Também é do registro de nossa história que os problemas das adversidades climáticas, hoje muito mais graves por decorrência da degradação dos recursos naturais, não são recentes. Assim, em 1900 a seca que atingiu a região produtora de café fez reduzir em 30% a produção e quebrar mais de 40% a arrecadação dos tributos, influenciada pelo declínio dos preços no mercado internacional. A produção de café no Espírito Santo estava apenas começando.


Um e outro fato, ou seja, o problema da qualidade do café e a questão da instabilidade dos preços deixaram marcas indeléveis na nossa história, e certamente, estarão conosco no futuro. Dos esforços na melhoria da qualidade, temos avançado e certamente continuaremos avançando para os próximos anos. Da instabilidade dos preços somos, historicamente, dependentes do comportamento do mercado internacional. Continuamos ainda hoje com essa dependência. Para o futuro, políticas que estimulem a formação de estoques reguladores e estratégicos, envolvendo o setor privado, com mais agregação de valor na indústria de torrefação e de solúvel, permitirão certamente suavizar as flutuações dos preços de que somos vulneráveis há mais de cem anos.


Na crise de preços do café de 1906 a 1909, tivemos a primeira reestruturação fundiária endógena, pela desestruturação das grandes fazendas de café no sul do Estado, a qual contribuiu para determinar a distribuição agrária típica da nossa agricultura familiar: as terras das grandes fazendas foram parceladas e vendidas a colonos e agregados dos barões do café. Reproduzia-se, na região sul do Estado, o parcelamento de terras devolutas na Região Central, conduzido, direta ou indiretamente, pelo poder público, que marcam até hoje a dominância da pequena propriedade familiar.


Releva destacar, ainda, por similitude com o momento presente, a grande depressão de 1929, cujos efeitos sobre o café foram devastadores. Primeiro, porque vínhamos desde 1912, com uma política de valorização do café, com garantia de preços, e grandes volumes de estoques públicos. Segundo, porque a redução da demanda por efeitos da depressão econômica declinou fortemente os preços, levando o governo a optar pela queima do café, ao longo da década de 1930. Naquela oportunidade da grande depressão, sacrificou-se a renda dos produtores familiares, mas não foi provocada a fome da população, porque dominantemente rural e produzia seus alimentos, se não todos, a maioria absoluta deles.


Nesta crise que vivenciamos agora, torcemos para que não se chegue à forte recessão mundial, muito menos à temível depressão.  Uma forte recessão hoje poderá significar, muito mais que antes, elevado desemprego, grave perda de renda e fome, em vista de uma população dominantemente urbana, não só no Espírito Santo, como no Brasil e na maior parte do mundo mais integrado ao mercado.


Resgatamos, aqui, para reflexão, o que é mais substantivo no propósito de repensar o futuro da agricultura: a questão  sustentável da agricultura familiar no agronegócio capixaba, pela relevância que esse segmento tem desde os primórdios de nossa colonização.


E a história nos mostra: desde as colônias de imigrantes, sempre a agricultura familiar esteve, em maior ou menor grau, vinculada ao mercado através do café. Muitas vezes mal remunerada, é verdade, pelas adversidades de clima e de preços. Mas, por traz, estavam a farinha de mandioca, a cana, o milho, o feijão, o arroz, o suíno, a galinha, o gado, dentre outras atividades.


O diferencial competitivo deste segmento, sem saudosismos e não querendo reproduzir o passado, está na lógica da diversificação da produção. A Agricultura familiar não imputa custos das relações de trabalho formal e das despesas indiretas, podendo diferenciar-se ainda mais com a redução dos custos de produção, viabilizando insumos e alimentos na propriedade.


Portanto, o caminho da profissionalização com diversificação, associado à redução de custos no processo produtivo, constitui-se na melhor alternativa para fortalecer as diferenciações competitivas deste segmento no mercado.


No momento presente, avolumam-se os desafios de uma economia global que padece de desconfiança da sociedade, em vista da crise encetada pelo sistema financeiro mundial. E estes desafios se amplificam, ainda mais, quando não estamos suficientemente preparados para enfrentar a crise atual, pela insistência do Governo Federal em não reduzir a carga tributária, os juros e as despesas correntes. Juros baixos e Investimentos em infra-estrutura produtiva e social é a grande tônica dos gastos públicos, nesse período de pouco investimento privado.


Da função de estimular o processo produtivo e comercial – dinamizando o fluxo de produtos e serviços – o sistema financeiro, sem regulação mundial, passou a gerar “riqueza virtual”. Ainda que os ajustes sejam dolorosos, haverá ganhos dessa crise, onde a produção real, aí incluída a agricultura, se sobreporá aos movimentos especulativos.


E quando o produto do trabalho dos agricultores for devidamente valorado – com políticas consistentes de fomento, preços e estocagem de grãos – todos serão justamente recompensados. E o mundo viverá melhor se o sistema financeiro, regulado e fiscalizado, voltar às suas funções relevantes, coibindo-se a tentação especulativa. A lógica do mercado não exclui a regulação, o controle e a fiscalização de todos os mercados, para o bem da sociedade.


 


César Colnago


Secretário de Agricultura do Espírito Santo


 


Wolmar Loss


Engenheiro agrônomo, com mestrado em economia rural e assessor da Secretaria de Agricultura do Espírito Santo

Você também pode gostar

O Portal Campo Vivo é um veículo de mídia especializada no agro, da Campo Vivo – Inteligência em Agronegócios, empresa ligada diretamente ao setor dos agronegócios, interessada na valorização das cadeias produtivas da agropecuária capixaba e nacional.

Siga nossas redes sociais

Desenvolvido por ideale.dev

Este site usa cookies para melhorar a sua experiência. Vamos supor que você está de acordo, mas você pode optar por sair, se desejar. Aceitar